{"id":847,"date":"2026-07-15T05:18:48","date_gmt":"2026-07-15T05:18:48","guid":{"rendered":"https:\/\/artworkpost.com\/o-jardim-das-delicias-terrenas\/"},"modified":"2026-10-17T07:22:57","modified_gmt":"2026-10-17T07:22:57","slug":"o-jardim-das-delicias-terrenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/artworkpost.com\/pt-br\/o-jardim-das-delicias-terrenas\/","title":{"rendered":"O Jardim das Del\u00edcias Terrenas \u2013 O tr\u00edptico de Bosch entre o para\u00edso e o inferno"},"content":{"rendered":"<p class=\"lead\"><strong>Em 30 de julho de 1517, um c\u00f4nego italiano em viagem pela Europa, Antonio de Beatis, entrou no pal\u00e1cio dos condes de Nassau, em Bruxelas, e anotou em seu di\u00e1rio que tinha visto um quadro cheio de \u201ccoisas t\u00e3o bizarras\u201d que era imposs\u00edvel descrev\u00ea-las a quem n\u00e3o as tivesse visto. \u00c9 a primeira men\u00e7\u00e3o conhecida de O Jardim das Del\u00edcias Terrenas, de Hieronymus Bosch. Cinco s\u00e9culos depois, ningu\u00e9m conseguiu explicar completamente o que ele significa \u2013 nem mesmo a partitura musical pintada nas n\u00e1degas de um condenado, que s\u00f3 foi tocada em 2014.<\/strong><\/p>\n<h2>Em resumo<\/h2>\n<ul>\n<li><strong>Artista:<\/strong> <a href=\"https:\/\/artworkpost.com\/pt-br\/artist\/hieronymus-bosch\/\">Hieronymus Bosch (c. 1450-1516)<\/a><\/li>\n<li><strong>Data:<\/strong> c. 1490-1500<\/li>\n<li><strong>T\u00e9cnica:<\/strong> \u00f3leo sobre madeira de carvalho, tr\u00edptico<\/li>\n<li><strong>Dimens\u00f5es:<\/strong> 205,5 \u00d7 384,9 cm (aberto)<\/li>\n<li><strong>Movimento:<\/strong> <a href=\"https:\/\/artworkpost.com\/pt-br\/movement\/northern-renaissance\/\">Renascimento do Norte<\/a><\/li>\n<li><strong>Onde est\u00e1:<\/strong> <a href=\"https:\/\/artworkpost.com\/pt-br\/museum\/prado-madrid\/\">Museu do Prado, Madri<\/a>, desde 1939<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Um mundo dentro de uma esfera<\/h2>\n<p>Fechado, o tr\u00edptico mostra quase s\u00f3 cinza: uma grande esfera transparente que cont\u00e9m a Terra no terceiro dia da Cria\u00e7\u00e3o, com plantas e montanhas, mas ainda sem homens nem animais. No alto, \u00e0 esquerda, Deus observa sua obra. \u00c9 um in\u00edcio silencioso, quase abstrato.<\/p>\n<p>Ao abrir os pain\u00e9is, a cor explode. \u00c0 esquerda, o Para\u00edso: Deus apresenta Eva a Ad\u00e3o num jardim cheio de animais reais e fant\u00e1sticos, em torno de uma fonte cor-de-rosa. No centro, um imenso jardim povoado por centenas de figuras nuas que brincam, se abra\u00e7am, cavalgam animais, comem frutas gigantes. \u00c0 direita, o Inferno: escuro, gelado e em chamas ao mesmo tempo, onde os condenados s\u00e3o torturados por m\u00e1quinas, instrumentos musicais e criaturas monstruosas.<\/p>\n<h2>Para\u00edso, loucura e dana\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n<p>A leitura mais aceita l\u00ea o tr\u00edptico da esquerda para a direita: a cria\u00e7\u00e3o do primeiro casal, o pecado que se espalha pela humanidade, o castigo final. O painel central n\u00e3o mostraria um para\u00edso de prazeres inocentes, mas um mundo entregue \u00e0s del\u00edcias passageiras \u2013 como as frutas enormes, morangos e amoras, que simbolizavam a fugacidade dos prazeres. At\u00e9 o antigo nome do quadro em Espanha, <em>la pintura del madro\u00f1o<\/em> (\u201ca pintura do medronheiro\u201d), remete a uma dessas frutas.<\/p>\n<p>Mas a obra resiste a qualquer explica\u00e7\u00e3o \u00fanica. Para alguns, \u00e9 uma advert\u00eancia moral; para outros, a vis\u00e3o de uma humanidade antes do pecado, ou uma alegoria de cren\u00e7as secretas. O pr\u00f3prio Bosch n\u00e3o deixou nenhum texto sobre ela.<\/p>\n<h2>S\u00edmbolos e o que observar<\/h2>\n<p><strong>A fonte do Para\u00edso.<\/strong> No painel esquerdo, uma alta estrutura rosa, meio vegetal, meio mineral, ergue-se num lago. Dentro dela, uma coruja espreita: j\u00e1 um sinal de mal no \u00c9den.<\/p>\n<p><strong>As frutas gigantes.<\/strong> No centro, os corpos se escondem dentro de morangos, cerejas e conchas enormes. O prazer \u00e9 doce, mas ef\u00eamero.<\/p>\n<p><strong>O cortejo de cavaleiros.<\/strong> Ao redor de um lago circular, homens montados em cavalos, camelos, javalis e grifos giram como num carrossel, enquanto mulheres se banham no centro.<\/p>\n<p><strong>O Homem-\u00c1rvore.<\/strong> No Inferno, uma figura com corpo de ovo quebrado e pernas de tronco de \u00e1rvore olha para tr\u00e1s, por cima do ombro. Dentro de seu corpo, h\u00e1 uma taverna. Muitos veem em seu rosto um poss\u00edvel autorretrato de Bosch.<\/p>\n<p><strong>A m\u00fasica do inferno.<\/strong> No painel direito, os instrumentos musicais se tornam instrumentos de tortura: um homem est\u00e1 crucificado numa harpa, outro aprisionado num ala\u00fade. Nas n\u00e1degas de um condenado, esmagado sob o ala\u00fade, est\u00e1 pintada uma partitura. Em 2014, uma estudante norte-americana, Amelia Hamrick, a transcreveu e gravou \u2013 contamos essa hist\u00f3ria em <a href=\"https:\/\/artworkpost.com\/pt-br\/nove-coisas-que-descobrimos-sobre-pinturas-famosas\/\">Nove coisas que descobrimos sobre pinturas famosas<\/a>.<\/p>\n<h2>Dos Nassau a Filipe II<\/h2>\n<p>N\u00e3o se sabe quem encomendou a obra. Em 1517, ela estava no pal\u00e1cio dos Nassau, em Bruxelas, provavelmente pertencente ao conde Henrique III de Nassau. Em 1568, durante a revolta dos Pa\u00edses Baixos contra a Espanha, os bens de Guilherme de Orange-Nassau foram confiscados pelo duque de Alba, e o tr\u00edptico passou para m\u00e3os espanholas.<\/p>\n<p>O rei Filipe II, grande admirador de Bosch, comprou-o num leil\u00e3o e o enviou para o mosteiro do Escorial, onde chegou em 8 de julho de 1593. A obra ficou l\u00e1 por mais de tr\u00eas s\u00e9culos, at\u00e9 ser transferida para o Museu do Prado em 1939.<\/p>\n<p>Em 2016, para os 500 anos da morte de Bosch, o Prado organizou uma grande exposi\u00e7\u00e3o dedicada ao pintor, que reuniu cerca de 25 obras a ele atribu\u00eddas e atraiu mais de meio milh\u00e3o de visitantes.<\/p>\n<h2>Sobre Hieronymus Bosch<\/h2>\n<p>Jheronimus van Aken nasceu por volta de 1450 em \u2019s-Hertogenbosch, nos Pa\u00edses Baixos, e adotou o nome da cidade para assinar seus quadros: Bosch. Viveu ali a vida inteira, numa fam\u00edlia de pintores, e foi membro de uma confraria religiosa dedicada \u00e0 Virgem. Morreu em 1516. Hoje se atribuem a ele com seguran\u00e7a cerca de 25 pinturas, e quase nenhum documento pessoal seu sobreviveu.<\/p>\n<h2>Legado e influ\u00eancia<\/h2>\n<p>Bosch teve imitadores ainda em vida e um herdeiro de g\u00eanio na gera\u00e7\u00e3o seguinte: Pieter Bruegel, o Velho, que retomou suas multid\u00f5es e seus mundos fervilhantes em obras como <a href=\"https:\/\/artworkpost.com\/pt-br\/a-torre-de-babel\/\">A torre de Babel<\/a>. No s\u00e9culo XX, os surrealistas viram nele um precursor, e suas criaturas h\u00edbridas passaram para o cinema, a ilustra\u00e7\u00e3o e a cultura pop.<\/p>\n<h2>E no Brasil?<\/h2>\n<p><strong>Um Bosch em S\u00e3o Paulo.<\/strong> O MASP guarda uma pintura atribu\u00edda a Hieronymus Bosch: <em>As tenta\u00e7\u00f5es de Santo Ant\u00e3o<\/em>, datada de cerca de 1495-1500. Alguns estudiosos acreditam que seja uma primeira vers\u00e3o do painel central do famoso tr\u00edptico hom\u00f4nimo de Bosch conservado em Lisboa; a atribui\u00e7\u00e3o, como em muitas obras ligadas ao pintor, \u00e9 discutida. Depois de adquirida pelo museu, ela participou das turn\u00eas de exposi\u00e7\u00f5es do acervo do MASP na Europa e nos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>Um rei que governava o Brasil.<\/strong> Quando o tr\u00edptico chegou ao Escorial, em 1593, Filipe II da Espanha era tamb\u00e9m rei de Portugal, como Filipe I, e, portanto, soberano do Brasil \u2013 foi o per\u00edodo da Uni\u00e3o Ib\u00e9rica (1580-1640).<\/p>\n<h2>Onde ver a obra hoje<\/h2>\n<p><em>O Jardim das Del\u00edcias Terrenas<\/em> est\u00e1 no <strong>Museu do Prado<\/strong>, em Madri, nas salas dedicadas \u00e0 pintura flamenga.<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Hor\u00e1rios:<\/strong> o Prado abre todos os dias \u2013 de segunda a s\u00e1bado, das 10h \u00e0s 20h; domingos e feriados, das 10h \u00e0s 19h. Confira no site do museu.<\/li>\n<li><strong>Entrada gratuita<\/strong> nas duas \u00faltimas horas de cada dia, sem reserva; a fila se forma antes.<\/li>\n<li><strong>Reserve pelo menos meia hora<\/strong> s\u00f3 para o tr\u00edptico: os detalhes s\u00e3o infinitos. Pergunte tamb\u00e9m se os pain\u00e9is exteriores est\u00e3o vis\u00edveis.<\/li>\n<li><strong>No mesmo museu:<\/strong> <a href=\"https:\/\/artworkpost.com\/pt-br\/las-meninas\/\">Las Meninas<\/a>, de Vel\u00e1zquez, e <a href=\"https:\/\/artworkpost.com\/pt-br\/o-tres-de-maio-de-1808\/\">O tr\u00eas de maio de 1808<\/a>, de Goya.<\/li>\n<li><strong>Em S\u00e3o Paulo:<\/strong> <em>As tenta\u00e7\u00f5es de Santo Ant\u00e3o<\/em>, atribu\u00edda a Bosch, no MASP.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Perguntas frequentes<\/h2>\n<h3>O que significa O Jardim das Del\u00edcias Terrenas?<\/h3>\n<p>A leitura mais aceita v\u00ea nele uma progress\u00e3o do Para\u00edso ao Inferno, passando por um mundo entregue aos prazeres passageiros. Mas h\u00e1 outras interpreta\u00e7\u00f5es, e Bosch n\u00e3o deixou nenhuma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Quem encomendou o tr\u00edptico?<\/h3>\n<p>N\u00e3o se sabe. Em 1517 ele estava no pal\u00e1cio dos Nassau, em Bruxelas. Foi confiscado pelo duque de Alba em 1568 e comprado por Filipe II, que o enviou ao Escorial em 1593.<\/p>\n<h3>Existe mesmo uma partitura pintada no quadro?<\/h3>\n<p>Sim, nas n\u00e1degas de um condenado, no painel do Inferno. Ela foi transcrita e gravada em 2014.<\/p>\n<h3>Qual \u00e9 o tamanho do tr\u00edptico?<\/h3>\n<p>Aberto, mede 205,5 \u00d7 384,9 cm.<\/p>\n<h3>H\u00e1 obras de Bosch no Brasil?<\/h3>\n<p>O MASP, em S\u00e3o Paulo, possui <em>As tenta\u00e7\u00f5es de Santo Ant\u00e3o<\/em>, uma pintura atribu\u00edda a Bosch, possivelmente uma primeira vers\u00e3o do painel central do tr\u00edptico de Lisboa.<\/p>\n<p>Bosch pintou o mundo dentro de uma bola de vidro, depois o abriu e o encheu de corpos, frutas, monstros e m\u00fasica. Ele n\u00e3o deixou nenhuma chave para l\u00ea-lo \u2013 e talvez seja por isso que, cinco s\u00e9culos depois, ainda se possa passar uma hora diante dele e descobrir, a cada minuto, uma figura que ningu\u00e9m tinha notado.<\/p>\n<p class=\"image-attribution\" style=\"font-size:0.85em;color:#666;\"><em>Imagem: O Jardim das Del\u00edcias Terrenas \u2013 Hieronymus Bosch, c. 1490-1500, Museu do Prado, Madri. Licen\u00e7a: dom\u00ednio p\u00fablico. Fonte: <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:The_Garden_of_earthly_delights.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wikimedia Commons<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 30 de julho de 1517, um c\u00f4nego italiano em viagem pela Europa, Antonio de Beatis, entrou no pal\u00e1cio dos condes de Nassau, em Bruxelas, e anotou em seu di\u00e1rio que tinha visto um quadro cheio de \u201ccoisas t\u00e3o bizarras\u201d que era imposs\u00edvel descrev\u00ea-las a quem n\u00e3o as tivesse visto. \u00c9 a primeira men\u00e7\u00e3o 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