Composição com Vermelho, Azul e Amarelo – O Mondrian dedicado em francês e a arte concreta brasileira
Em janeiro de 1930, em seu ateliê de Paris, Piet Mondrian escreveu uma dedicatória em francês num pequeno quadro quadrado para um jovem arquiteto suíço, Alfred Roth: buscar o equilíbrio das relações, “na arte e na vida”, era “o belo trabalho de hoje”, era “preparar o futuro”. Roth guardou o quadro por 57 anos, até doá-lo ao Kunsthaus de Zurique. O futuro chegou mais longe do que Mondrian imaginava: vinte anos depois, a arte geométrica que nasceu de quadros como este explodiu em São Paulo, na primeira Bienal, e deu origem à arte concreta brasileira.
Em resumo
- Artista: Piet Mondrian (1872-1944)
- Data: 1930, Paris
- Técnica: óleo sobre tela
- Dimensões: 46 × 46 cm
- Inscrições: monograma “P M 30” e dedicatória em francês a Alfred Roth
- Movimento: De Stijl – neoplasticismo
- Onde está: Kunsthaus Zürich, doação de Alfred Roth, 1987
Um grande vermelho, um pequeno azul, um amarelo mínimo
Olhe primeiro para a distribuição das cores. Um grande quadrado vermelho ocupa quase todo o canto superior direito. Embaixo, à esquerda, um pequeno quadrado azul faz o contrapeso. Embaixo, à direita, um retângulo amarelo muito estreito, quase invisível, completa o conjunto. O resto é branco, dividido por linhas pretas.
Nada é simétrico, e mesmo assim tudo se sustenta. O grande vermelho poderia esmagar a composição; o pequeno azul, colocado no canto oposto, basta para equilibrá-la. Era isso que Mondrian buscava: um equilíbrio feito de contrastes – grande e pequeno, cheio e vazio, cor e branco. Não uma harmonia parada, mas um equilíbrio vivo.
A dedicatória
O quadro traz o monograma “P M 30” e uma dedicatória escrita em francês, a língua da cidade onde Mondrian vivia: “Dédié à mon cher ami et collègue Alfred Roth”, seguida de uma frase entre aspas – contar apenas com as relações, criando-as e buscando seu equilíbrio, na arte e na vida, “c’est le beau travail d’aujourd’hui : c’est préparer l’avenir” (“é o belo trabalho de hoje: é preparar o futuro”). E a data: “Paris janvier ’30”.
Alfred Roth era um arquiteto suíço do movimento moderno. Ficou com o quadro de 1930 a 1987, quando o doou ao Kunsthaus de Zurique.
O neoplasticismo
Mondrian começou pintando paisagens tradicionais da Holanda: moinhos, dunas, árvores. Ao longo dos anos 1910, simplificou pouco a pouco as formas. Suas árvores, por exemplo, viraram redes de linhas – vale compará-las com os galhos floridos de Van Gogh em Flores de amendoeira.
Por volta de 1920, ele fixou suas regras: apenas linhas retas horizontais e verticais, as três cores primárias – vermelho, azul e amarelo – e as “não cores”: branco, preto e cinza. Chamou essa pintura de “neoplasticismo”. Não se tratava de representar o mundo, mas de expressar, com os elementos mais simples, relações universais.
Com o pintor Theo van Doesburg, Mondrian havia participado da fundação do movimento e da revista De Stijl (“O Estilo”), em 1917, na Holanda. Os dois romperam em meados dos anos 1920, em parte porque Van Doesburg introduziu linhas diagonais em suas composições. Para Mondrian, a diagonal destruía o equilíbrio entre horizontal e vertical.
Símbolos e o que observar
As linhas pretas. Nem todas têm a mesma espessura. Algumas param antes da borda da tela, outras a atingem. Essas pequenas diferenças, invisíveis em reprodução, dão ritmo à composição.
Os brancos. Não são todos iguais: uns tendem ao cinza, outros são mais brilhantes. Mondrian pintava à mão, camada por camada, e a matéria fica visível de perto.
O formato quadrado. O quadrado é uma forma neutra, sem direção privilegiada. Mondrian o usava para que a composição não parecesse “em pé” nem “deitada”.
O pequeno amarelo. Esse retângulo mínimo, quase perdido, é essencial: sem ele, o quadro não seria “vermelho, azul e amarelo”. É a economia de meios levada ao extremo.
Sobre Piet Mondrian
Pieter Cornelis Mondriaan nasceu em 1872 em Amersfoort, na Holanda. Depois de uma formação acadêmica, descobriu em Paris, em 1911-1912, o cubismo de Picasso e Braque. Foi nessa época que tirou um “a” do sobrenome e passou a assinar “Mondrian”.
Viveu em Paris de 1912 a 1914 e de 1919 a 1938. Em 1921, alugou um ateliê na rue du Départ, perto da estação de Montparnasse, onde viveu e trabalhou por cerca de quinze anos. Deixou a França às vésperas da guerra, passou dois anos em Londres e se instalou em Nova York em 1940. A cidade e o jazz inspiraram suas últimas obras, mais coloridas e rítmicas, como Broadway Boogie Woogie. Morreu em Nova York em 1944.
Legado e influência
As composições de Mondrian marcaram profundamente a arquitetura, o design e as artes gráficas do século XX. Suas grades e cores primárias aparecem em fachadas, móveis, capas de livros e cartazes. Em 1965, em Paris, o costureiro Yves Saint Laurent apresentou vestidos inspirados em suas composições, que se tornaram ícones da moda.
Em Zurique, cidade onde está este quadro, as ideias de Mondrian e do De Stijl alimentaram toda uma geração de artistas “concretos”, liderados por Max Bill. E foi justamente por Zurique que esse legado chegou ao Brasil.
E no Brasil?
A Bienal de 1951. Em 1950, o artista suíço Max Bill, figura central da arte concreta de Zurique, apresentou uma exposição individual no MASP. No ano seguinte, na primeira Bienal de São Paulo, recebeu o prêmio internacional de escultura com Unidade tripartida, uma escultura de aço que desenvolve no espaço uma única forma contínua. Hoje a obra pertence ao Museu de Arte Contemporânea da USP.
O nascimento da arte concreta brasileira. O prêmio foi um choque e um estímulo para os jovens artistas brasileiros que já exploravam a geometria. Em dezembro de 1952, o Grupo Ruptura, liderado por Waldemar Cordeiro, inaugurou sua exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com obras sem significado além das próprias formas e cores. Em 1954, no Rio de Janeiro, Ivan Serpa fundou o Grupo Frente. Pouco depois, artistas do Rio como Lygia Clark e Hélio Oiticica reagiram ao rigor paulista com o neoconcretismo, que devolveu à arte geométrica a emoção e o corpo do espectador.
Mondrian em São Paulo. Na segunda Bienal de São Paulo, em 1953, o público brasileiro pôde ver obras de Mondrian ao lado das de Picasso, Calder, Paul Klee e Henry Moore. O equilíbrio de linhas e cores que ele havia dedicado a um amigo em Paris, em 1930, chegava assim ao outro lado do Atlântico.
Onde ver a obra hoje
O quadro está no Kunsthaus Zürich, na Suíça, nas salas dedicadas à arte moderna clássica.
- Como chegar: o Kunsthaus fica na Heimplatz, a poucos minutos do centro de Zurique. Ganhou em 2021 uma nova ala projetada pelo arquiteto David Chipperfield.
- Confira no site do museu se o quadro está exposto: obras de Mondrian costumam ser emprestadas para exposições.
- Chegue perto para ver as diferenças de espessura das linhas e a textura dos brancos.
- Em São Paulo: a Unidade tripartida, de Max Bill, no MAC USP, e as obras dos concretos e neoconcretos brasileiros, em museus como a Pinacoteca e o MAM.
Perguntas frequentes
Onde está a Composição com Vermelho, Azul e Amarelo?
No Kunsthaus de Zurique, na Suíça, desde a doação do arquiteto Alfred Roth, em 1987.
Por que Mondrian usava só vermelho, azul e amarelo?
Ele os considerava as cores fundamentais. Junto com o branco, o preto e o cinza, permitiam criar uma linguagem universal, sem referência ao mundo visível.
O quadro é simétrico?
Não. Um grande quadrado vermelho no alto, à direita, é equilibrado por um pequeno quadrado azul embaixo, à esquerda, e por um mínimo retângulo amarelo embaixo, à direita.
Quem foi Alfred Roth?
Um arquiteto suíço, amigo de Mondrian, a quem o pintor dedicou o quadro em janeiro de 1930. Guardou-o até 1987.
Qual a relação de Mondrian com a arte brasileira?
Suas ideias, desenvolvidas pela arte concreta suíça de Max Bill, chegaram ao Brasil nas Bienais de São Paulo de 1951 e 1953 e inspiraram os grupos Ruptura e Frente e, depois, o neoconcretismo.
Mondrian passou a vida buscando o equilíbrio perfeito com o mínimo possível: algumas linhas, três cores, muito branco. Ao dedicar este pequeno quadrado a um amigo arquiteto, escreveu que buscar esse equilíbrio era “preparar o futuro”. O futuro, de fato, cobriu suas grades de fachadas, cartazes e vestidos – e atravessou o oceano até São Paulo.
Imagem: Composição com Vermelho, Azul e Amarelo – Piet Mondrian, 1930, Kunsthaus Zürich. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.
