O Nascimento de Vénus – Botticelli, a deusa que chega a Chipre e o ouro nos cabelos
Apesar do título, O Nascimento de Vénus não mostra um nascimento. Segundo a Galeria Uffizi, onde o quadro se encontra, a cena mostra a chegada da deusa do amor à ilha de Chipre: nascida da espuma do mar, Vénus é empurrada até à praia pelos ventos, de pé sobre uma concha gigante. Botticelli pintou-a por volta de 1485 – e fez duas escolhas raríssimas na Florença do seu tempo: pintou sobre tela, e não sobre madeira, e pôs ouro verdadeiro nos cabelos da deusa.
Em resumo
- Artista: Sandro Botticelli (c. 1445-1510)
- Data: por volta de 1485
- Técnica: têmpera sobre tela de linho, com realces a ouro
- Dimensões: 172,5 × 278,5 cm
- Movimento: Renascimento
- Onde está: Galeria Uffizi, Florença, desde 1815
Uma deusa que chega a terra
Ao centro, Vénus, nua, está de pé sobre uma grande concha que desliza sobre o mar. À esquerda, dois seres alados entrelaçados sopram na sua direção: Zéfiro, o vento de oeste, e, provavelmente, Aura, a brisa suave. Caem rosas no ar à sua volta. À direita, na margem, uma jovem vestida, por vezes identificada com uma das Graças ou com a Hora da Primavera, corre para cobrir a deusa com um manto cor-de-rosa salpicado de flores.
Segundo o mito antigo, Vénus – Afrodite, para os gregos – nasceu da espuma do mar e foi levada pelos ventos até à costa de Chipre. Botticelli escolheu esse instante de chegada, entre o mar e a terra, entre o divino e o humano.
A pose de uma estátua antiga
Vénus cobre o peito com uma das mãos e o sexo com os longos cabelos dourados: é a pose chamada Vénus pudica, inspirada em estátuas da Antiguidade. Na Florença do século XV, quase não se pintavam nus femininos em tamanho natural que não fossem Eva. Botticelli trouxe para a pintura um corpo vindo diretamente da escultura clássica.
Esse corpo não é realista: o pescoço é demasiado longo, os ombros descaem de forma improvável, o peso não assenta verdadeiramente na concha. Botticelli procura uma beleza ideal, não uma anatomia exata – o contrário do que Miguel Ângelo faria, poucas décadas depois, em A Criação de Adão.
Um quadro para os Médici
Segundo os Uffizi, é muito provável que a obra tenha sido encomendada por um membro da família Médici, mas nada foi escrito sobre ela antes de 1550. Nesse ano, o pintor e historiador Giorgio Vasari descreveu-a na Villa di Castello, uma casa de campo dos Médici perto de Florença, pertencente a um ramo mais novo da família, o dos primos de Lourenço, o Magnífico. A tradição associa a encomenda a Lorenzo di Pierfrancesco de’ Medici, mas nenhum documento o comprova. A primeira menção num inventário da villa data de 1598.
O tema terá sido sugerido pelo poeta Angelo Poliziano, que pertencia ao círculo dos Médici e escreveu versos sobre o nascimento de Vénus. Nesse meio, a filosofia neoplatónica via na beleza física um reflexo da beleza divina.
O quadro ficou na villa de Castello, ao lado de outra grande pintura mitológica de Botticelli, A Primavera. Ambos entraram na Galeria Uffizi em 1815.
Símbolos e o que observar
A tela. Na Florença do século XV, quase tudo se pintava sobre madeira. O uso de uma tela de linho, para uma obra deste tamanho, era extremamente invulgar.
O ouro. Olhe de perto os cabelos de Vénus, os troncos e as folhas das árvores: Botticelli usou ouro nos reflexos, aplicado a pincel nos cabelos e com um mordente nas árvores. Com a luz, brilham ligeiramente.
O mar. As ondas são pequenos traços em V, regulares e decorativos. O mar não tem profundidade nem tempestade: é um cenário de mito, não de natureza.
As rosas. Segundo uma lenda antiga, a rosa nasceu ao mesmo tempo que Vénus. Botticelli espalha-as no ar à volta dos ventos.
Os ventos. Os corpos de Zéfiro e Aura entrelaçam-se numa só forma, de bochechas cheias: é o sopro que empurra a concha.
Sobre Sandro Botticelli
Alessandro di Mariano Filipepi nasceu em Florença por volta de 1445. A alcunha «Botticelli» – «barrilzinho» – terá vindo de um irmão mais velho. Formou-se no ateliê de Fra Filippo Lippi e tornou-se um dos pintores preferidos dos Médici e do círculo humanista florentino. Trabalhou também em Roma, nos frescos das paredes da Capela Sistina, cerca de trinta anos antes de Miguel Ângelo pintar o teto.
No fim da vida, segundo Vasari, deixou-se influenciar pelas pregações do frade Girolamo Savonarola e voltou-se para uma pintura religiosa mais severa. Morreu em Florença em 1510, quase esquecido. A sua fama só renasceu no século XIX, graças a críticos e pintores ingleses, entre os quais os pré-rafaelitas.
Legado e influência
Hoje, a Vénus de Botticelli é uma das imagens mais reproduzidas do mundo: em cartazes, roupa, publicidade e filmes. Andy Warhol reinterpretou-a em 1984, isolando o rosto da deusa em serigrafias coloridas.
Uma lenda muito divulgada diz que a modelo teria sido Simonetta Vespucci, jovem célebre pela sua beleza na Florença dos anos 1470, morta em 1476. Nenhum documento o comprova, e o rosto de Vénus é antes um ideal do que um retrato.
A tradição do nu feminino ideal que Botticelli reabriu atravessa os séculos até obras que a desafiam, como A Maja Nua, de Goya. E a pergunta sobre por que razão certas formas nos parecem belas continua em aberto – a neurociência tenta responder-lhe, como contamos em O que a arte faz ao cérebro.
Onde ver a obra hoje
O Nascimento de Vénus está na Galeria Uffizi, em Florença, na sala dedicada a Botticelli, ao lado de A Primavera.
- Reserve em linha no site oficial dos Uffizi: as filas sem reserva podem ser muito longas, sobretudo no verão.
- Horários: confirme no site do museu antes de ir.
- Reserve tempo para a sala de Botticelli: as duas grandes pinturas mitológicas estão lado a lado.
- No mesmo museu: obras de Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Rafael e Caravaggio.
- Em Florença: a Villa di Castello, onde o quadro esteve durante séculos, fica a poucos quilómetros do centro; os seus jardins podem ser visitados.
Perguntas frequentes
O quadro mostra mesmo o nascimento de Vénus?
Não exatamente. Segundo os Uffizi, mostra a chegada da deusa à ilha de Chipre, nascida da espuma do mar e empurrada pelos ventos até à costa.
Foi pintado sobre tela ou sobre madeira?
Sobre tela de linho, a têmpera – uma escolha extremamente invulgar na Florença do século XV.
Quem encomendou a pintura?
Provavelmente um membro da família Médici, mas não há documento. A primeira descrição é de Vasari, em 1550, na Villa di Castello.
Quem foi a modelo?
Não se sabe. A tradição fala em Simonetta Vespucci, mas não há prova.
Desde quando está o quadro nos Uffizi?
Desde 1815. Antes, esteve durante séculos na Villa di Castello, ao lado de A Primavera.
Botticelli pintou uma deusa a chegar a uma ilha, empurrada pelo vento, com ouro nos cabelos e um corpo que nenhuma anatomia sustentaria. Talvez por isso a imagem resista tão bem ao tempo: nunca quis ser real. Quis ser bela – e, cinco séculos depois, continua a ser a primeira imagem que muita gente associa à palavra beleza.
Imagem: O Nascimento de Vénus – Sandro Botticelli, c. 1485, Galeria Uffizi, Florença. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.
