Claude Monet, Water Lilies, 1906 – the surface of the Giverny pond with clusters of lilies and reflected sky, painted without a horizon line

Ninfeias (1906) – O lago de Giverny sem horizonte, céu nem margem

Neste quadro não há céu, nem horizonte, nem margem. Apenas água, folhas redondas e flores a flutuar, como se estivéssemos debruçados sobre o lago de Monet em Giverny, sem onde apoiar o olhar. Monet assinou e datou a tela no canto inferior direito: «Claude Monet 1906». Pintou cerca de 250 quadros de ninfeias nos últimos trinta anos de vida – e este, que um colecionador de Chicago comprou por 20 mil dólares, é um dos que mostram o momento em que decidiu tirar o mundo de cima da água.

Em resumo

Um jardim feito para ser pintado

Em 1883, Monet instalou-se em Giverny, uma aldeia da Normandia, a cerca de 70 quilómetros de Paris. Dez anos depois, comprou um terreno do outro lado da estrada e mandou abrir um lago, alimentado por um braço do rio Epte, onde plantou ninfeias – os nenúfares – e construiu uma ponte de estilo japonês. Não pintava a natureza tal como a encontrava: criou um jardim inteiro para depois o pintar.

A partir do fim da década de 1890, o lago tornou-se praticamente o seu único tema. Nos primeiros quadros, ainda se vê a ponte japonesa, as margens, as árvores. Depois, pouco a pouco, Monet aproxima-se da água, até restar apenas ela.

A água sem o mundo à volta

Este quadro de 1906 é um desses passos decisivos. O enquadramento é quase quadrado e cortado muito de perto. Não há horizonte que nos diga onde estamos, nem margem que dê escala. As ninfeias flutuam em ilhas de folhas verdes e flores rosadas e brancas, e a superfície da água reflete um céu que não vemos: azuis claros, nuvens, a luz do dia.

O resultado é uma imagem ao mesmo tempo precisa e vertiginosa. O olhar não sabe se está a ver a água, o reflexo do céu ou as plantas sob a superfície. Monet passou a pintar não um lugar, mas uma experiência do olhar.

Símbolos e o que observar

O céu invisível. Procure as nuvens refletidas na água: são a única presença do céu no quadro.

As ilhas de folhas. Criam uma diagonal que conduz o olhar do primeiro plano para o fundo e dão profundidade a uma superfície plana.

A pincelada. De perto, camadas sobrepostas de tinta, aplicadas com rapidez; de longe, tudo se organiza numa cena calma.

A assinatura. No canto inferior direito, em tinta castanho-avermelhada: «Claude Monet 1906».

O formato. Quase quadrado, sem direção privilegiada: o lago poderia continuar em todas as direções.

De Giverny a Chicago

Na galeria do marchand Paul Durand-Ruel, o quadro tinha o título Les nymphéas, paysage d’eau, série de 1906: «Ninfeias, paisagem de água, série de 1906». Foi comprado pelo colecionador de Chicago Martin A. Ryerson por 20 mil dólares. Ryerson emprestou-o ao Art Institute de forma intermitente desde, pelo menos, 1921 e, ao morrer, em 1932, deixou-o ao museu, que o recebeu em 1933.

Chicago foi uma das cidades que mais cedo se apaixonaram por Monet. Em 1891, Bertha e Potter Palmer compraram cerca de vinte quadros seus – e chegaram a reunir uns noventa. Por isso, o Art Institute guarda hoje uma das mais ricas coleções de Monet fora de França.

Sobre Claude Monet

Claude Monet nasceu em Paris em 1840 e cresceu no Havre. Foi um dos fundadores do Impressionismo, movimento que tirou o nome de um quadro seu, Impressão, Nascer do Sol. Ao longo da vida, pintou séries inteiras de um mesmo motivo sob diferentes luzes – medas, a catedral de Rouen, as pontes de Londres –, como explicamos em Que versão está a ver?

A partir de 1912, uma catarata foi alterando a sua perceção das cores. Continuou a pintar, com uma paleta cada vez mais quente e uma pincelada cada vez mais livre, até morrer em Giverny, em 1926.

Monet era também um grande colecionador de estampas japonesas, que ainda hoje cobrem as paredes da sua casa em Giverny – estampas como A Grande Onda de Kanagawa, de Hokusai. A ponte japonesa do jardim é uma homenagem direta a esse universo.

Legado e influência

As grandes telas de ninfeias dos últimos anos de Monet, com a sua superfície sem horizonte e os seus enormes formatos, foram redescobertas depois da Segunda Guerra Mundial, quando os pintores da abstração passaram a ver nelas uma antecipação da pintura que envolve o espectador. Hoje, as ninfeias estão entre as imagens mais reproduzidas da história da arte.

O último grande projeto de Monet foi um conjunto de painéis monumentais de ninfeias que ofereceu ao Estado francês depois do armistício de 1918. Instalados em duas salas ovais do Museu da Orangerie, em Paris, foram abertos ao público em 1927, alguns meses depois da sua morte. Entrar nessas salas é a melhor forma de perceber o que Monet procurava já em 1906: estar rodeado de água.

Um dos antecedentes mais claros desta pesquisa encontra-se, curiosamente, no Brasil: no MASP, em São Paulo, A Canoa sobre o Epte (c. 1890) mostra Monet a tentar pintar, pela primeira vez, não os reflexos da superfície, mas a profundidade da água – «a água com a vegetação ondulante no fundo», como escreveu ao crítico Gustave Geffroy em junho de 1890.

Onde ver a obra hoje

Este quadro está no Art Institute of Chicago, nos Estados Unidos, junto ao Millennium Park.

  • Horários e bilhetes: confirme no site do museu os dias de abertura e reserve em linha.
  • No mesmo museu: outros Monet da coleção, uma das versões de O Quarto, de Van Gogh, e grandes obras do pós-impressionismo.
  • Em Paris: os grandes painéis das ninfeias no Museu da Orangerie e o Museu Marmottan Monet.
  • Em Giverny: a casa e o jardim de Monet, com o lago e a ponte japonesa, abertos ao público na primavera e no verão.

Perguntas frequentes

Quantas ninfeias pintou Monet?

Cerca de 250 quadros, do fim da década de 1890 até à sua morte, em 1926.

Porque é que não há horizonte neste quadro?

Monet enquadrou o lago muito de perto para eliminar as margens e o céu. O céu aparece apenas refletido na água.

Como chegou o quadro a Chicago?

Foi comprado pelo colecionador Martin A. Ryerson por 20 mil dólares e legado ao Art Institute of Chicago, que o recebeu em 1933.

Monet ficou cego?

Não completamente, mas a partir de 1912 sofreu de catarata, que alterou a sua perceção das cores. Continuou a pintar até ao fim da vida.

Onde estão os grandes painéis das ninfeias?

No Museu da Orangerie, em Paris, em duas salas ovais abertas ao público em 1927, pouco depois da morte de Monet.

Monet passou trinta anos debruçado sobre o mesmo lago. Neste quadro de 1906, tirou o céu, as margens e o horizonte, e deixou só a água. Mais de um século depois, quem para diante dele continua a ter a mesma sensação: a de olhar para dentro de algo que não tem fundo.

Imagem: Ninfeias – Claude Monet, 1906, Art Institute of Chicago. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

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