Wanderer above the Sea of Fog by Caspar David Friedrich, 1818

O Caminhante sobre o Mar de Névoa – O quadro mais famoso de Friedrich só foi exposto em 1939

Hoje, O Caminhante sobre o Mar de Névoa está em capas de livros, cartazes de filmes, memes e manuais de filosofia. Mas, durante mais de um século, quase ninguém o viu. Pintado por volta de 1817, o quadro só foi exposto pela primeira vez em 1939, numa galeria de Berlim. Em dezembro de 1970, a Hamburger Kunsthalle comprou-o por 600 mil marcos alemães. Um antigo diretor do museu chegou a dizer que o Caminhante é para Hamburgo aquilo que a Mona Lisa é para o Louvre.

Em resumo

Um homem de costas

Um homem de cabelo ruivo e casaco verde-escuro está de pé sobre um rochedo, de costas para nós, apoiado numa bengala. Diante dele, um mar de névoa cobre os vales; dele emergem cumes rochosos, árvores, montanhas ao longe. Não vemos o seu rosto, não sabemos o que pensa. Vemos o que ele vê – e, ao mesmo tempo, vemos que ele vê.

Esta figura vista de costas, a que os alemães chamam Rückenfigur, é a marca de Friedrich. Transforma o espectador em companheiro do caminhante: em vez de olharmos para um herói, pomo-nos no lugar dele. Velázquez fez algo semelhante, com outros meios, em Las Meninas, ao colocar o espectador dentro do quadro. Explicamos porque é que este tipo de composição nos toca tanto em O que a arte faz ao cérebro.

Uma paisagem montada a partir de esboços

A paisagem parece um lugar real, mas não existe tal como a vemos. Friedrich montou-a no ateliê, a partir de desenhos feitos durante anos de caminhadas pelas montanhas de arenito do Elba, na Suíça Saxónica, perto de Dresden. O rochedo onde está o caminhante vem de um grupo de rochas junto ao Kaiserkrone; a montanha cónica à esquerda, de um estudo do Rosenberg, na Suíça Boémia, desenhado em maio de 1808; à direita, responde-lhe o recorte característico do Zirkelstein.

O resultado é uma vista ideal: real em cada pormenor, inventada no conjunto.

Quem é o caminhante?

Não se sabe. O casaco que veste pode ser interpretado como o altdeutsche Tracht, o «traje alemão antigo» adotado por patriotas e estudantes alemães depois das guerras contra Napoleão – e mal visto pelas autoridades nos anos seguintes. Isso permite uma leitura política: o caminhante seria um patriota alemão. Alguns historiadores sugeriram que o quadro poderia homenagear um oficial morto na guerra, mas não há prova.

O mais provável é que Friedrich tenha querido uma figura sem identidade definida, para que qualquer pessoa pudesse ocupar o seu lugar.

Símbolos e o que observar

O rochedo escuro. Em primeiro plano, a rocha firme e sombria contrasta com a névoa clara: o chão sólido do presente diante do desconhecido.

A névoa. Apaga os vales e deixa emergir apenas os cumes, como ilhas num oceano. É a imagem daquilo que escapa ao olhar e ao controlo humano.

O centro. A cabeça do caminhante coincide quase exatamente com o ponto para onde convergem as linhas da paisagem. Tudo gira em torno de quem olha.

As cores. Castanhos, cinzentos, brancos e azuis pálidos: nada grita, tudo convida ao silêncio.

Sobre Caspar David Friedrich

Caspar David Friedrich nasceu em 1774 em Greifswald, no norte da Alemanha, junto ao Báltico. Perdeu a mãe e vários irmãos na infância. Estudou na Academia de Copenhaga e instalou-se em Dresden, onde viveu até à morte. Pintou montanhas, mares, ruínas, cemitérios, quase sempre com pequenas figuras a contemplar a natureza. Depois de um sucesso inicial, caiu no esquecimento; sofreu um AVC em 1835 e morreu em 1840. Só foi redescoberto no início do século XX.

Legado e influência

Nenhuma outra obra de Friedrich é tão reproduzida. A figura de costas diante de uma paisagem imensa tornou-se um modelo para capas de livros, cartazes de filmes, campanhas publicitárias e fotografias de viagem nas redes sociais – quem nunca viu alguém posar de costas no alto de uma montanha?

Nos 250 anos do nascimento do pintor, a Hamburger Kunsthalle organizou, entre dezembro de 2023 e abril de 2024, a exposição Caspar David Friedrich – Arte para um Novo Tempo, com mais de 60 pinturas e cerca de 100 desenhos. O Caminhante estava no centro de tudo.

Na mesma época, em Inglaterra, Turner também transformava a natureza em experiência interior, em quadros como Chuva, Vapor e Velocidade.

Onde ver a obra hoje

O Caminhante sobre o Mar de Névoa está na Hamburger Kunsthalle (Glockengießerwall 5), em Hamburgo, a poucos minutos a pé da estação central.

  • Horários e bilhetes: confirme no site do museu antes de ir.
  • Na mesma coleção: outros quadros de Friedrich, entre eles O Mar de Gelo.
  • Para perceber a paisagem: a Suíça Saxónica, perto de Dresden, onde Friedrich desenhou os rochedos, pode ser percorrida a pé.

Perguntas frequentes

Quando foi pintado o quadro?

Por volta de 1817, segundo a Hamburger Kunsthalle. A data exata é discutida: alguns historiadores propuseram «antes de 1818» ou «por volta de 1820».

A paisagem é real?

Em parte. Friedrich combinou desenhos de lugares reais da Suíça Saxónica e da Suíça Boémia, como o Kaiserkrone, o Rosenberg e o Zirkelstein, numa vista inventada.

Quem é o homem de costas?

Não se sabe. O casaco pode ser lido como traje patriótico alemão, mas a figura parece intencionalmente anónima.

Desde quando é o quadro conhecido?

Foi exposto pela primeira vez em 1939, em Berlim, e comprado pela Hamburger Kunsthalle em 1970.

Onde está o quadro?

Na Hamburger Kunsthalle, em Hamburgo.

Friedrich pintou um homem de costas diante de um mundo coberto de névoa, e o quadro passou mais de um século longe dos olhos do público. Quando finalmente apareceu, encontrou o seu tempo: uma época em que todos querem estar no alto da montanha, a olhar para o infinito. Talvez seja por isso que o caminhante nunca vira o rosto – ele é qualquer um de nós.

Imagem: O Caminhante sobre o Mar de Névoa – Caspar David Friedrich, c. 1817, Hamburger Kunsthalle. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

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