The Starry Night by Vincent van Gogh, 1889

A Noite Estrelada – Um céu pintado de dia, Vénus e uma aldeia que nunca existiu

A noite mais famosa da pintura foi pintada de dia. Em junho de 1889, internado no asilo de Saint-Rémy-de-Provence, Van Gogh não podia pintar no quarto: trabalhou à luz do dia, num ateliê no rés do chão, reconstruindo de memória o céu que tinha visto antes do amanhecer. A grande «estrela» branca à esquerda do centro não é uma estrela, mas Vénus – foi ele próprio que o contou ao irmão. A aldeia no vale não existia. E o céu em remoinho, como mostrou um estudo de 2024, segue as mesmas leis matemáticas da turbulência de um fluido real.

Em resumo

Um céu antes do amanhecer

A 8 de maio de 1889, depois das crises que tivera em Arles – a mais famosa terminou com a mutilação da própria orelha –, Van Gogh internou-se voluntariamente no asilo de Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, no sul de França. Ficou lá cerca de um ano e pintou, nesse período, uns 150 quadros.

Da janela do quarto, voltada a nascente, via um campo de trigo rodeado por um muro e, ao fundo, as colinas dos Alpilles. Numa carta ao irmão Theo, contou que nessa manhã tinha visto o campo da janela muito antes do nascer do sol, sem nada além da estrela da manhã, que parecia muito grande. Mas não podia pintar no quarto: A Noite Estrelada foi feita durante o dia, em várias sessões, a partir da memória e de esboços. A noite mais famosa da história da arte é uma reconstrução, não uma observação direta.

Um céu que é, de facto, turbulento

Os remoinhos do céu já foram lidos como expressão, como sintoma, como pura invenção. Em setembro de 2024, um estudo publicado na revista científica Physics of Fluids mediu a escala e a distribuição do brilho desses turbilhões e comparou-as com a teoria da turbulência de Kolmogorov, que descreve a forma como a energia passa dos grandes vórtices para os pequenos nos fluidos reais. A distribuição coincide; nas escalas mais pequenas, segue também a lei de Batchelor, que rege a mistura dentro de um escoamento turbulento.

Kolmogorov publicou a sua teoria em 1941, meio século depois da morte de Van Gogh. Pintando de memória, à luz do dia, o pintor produziu um campo turbulento matematicamente coerente. Contamos esta e outras descobertas recentes em Nove coisas que aprendemos sobre quadros famosos.

Símbolos e o que observar

Vénus, à esquerda do centro. O grande disco quase branco não é uma estrela, mas o planeta Vénus, a «estrela da manhã» que Van Gogh descreveu ao irmão.

A lua crescente, à direita. No canto oposto, envolta em anéis amarelos concêntricos, equilibra a composição com Vénus.

O cipreste. Escuro, em forma de chama, domina o primeiro plano à esquerda. Na tradição europeia, o cipreste é a árvore dos cemitérios e do luto; aqui, parece subir em direção ao céu. Está também muito mais perto do que qualquer cipreste estava da janela do asilo.

A aldeia. As casinhas de janelas acesas foram inventadas: não eram visíveis do quarto. O campanário pontiagudo lembra muito mais as igrejas da Holanda da infância de Van Gogh do que as da Provença.

As cores. Azuis-cobalto e azuis-esverdeados profundos, cortados por amarelos e brancos ardentes: não é a cor real de um céu noturno, mas uma temperatura emocional.

Sobre Vincent van Gogh

Nascido a 30 de março de 1853 em Zundert, na Holanda, Van Gogh só começou a pintar a sério perto dos 30 anos. Em cerca de dez anos, produziu aproximadamente 860 pinturas e mais de 1300 desenhos e obras sobre papel. Morreu em Auvers-sur-Oise a 29 de julho de 1890, aos 37 anos, pouco mais de um ano depois de pintar este quadro.

Ao contrário da lenda, não vendeu «um único quadro» em vida: A Vinha Vermelha é a venda mais famosa, mas há registos de outras. Ainda assim, foi um fracasso comercial – e a sua glória foi quase toda póstuma.

Um ano antes, em Arles, tinha pintado a noite ao ar livre, diante do motivo, em Terraço de Café à Noite e em Noite Estrelada sobre o Ródano, hoje no Museu d’Orsay, em Paris. Poucos meses depois de A Noite Estrelada, ainda em Saint-Rémy, pintaria as serenas Amendoeiras em Flor para o sobrinho recém-nascido.

Legado e influência

A Noite Estrelada entrou no acervo do MoMA em 1941, adquirida através do legado de Lillie P. Bliss: o museu trocou outras obras desse legado para a comprar. Tornou-se uma das imagens mais reproduzidas do mundo e inspirou a canção Vincent (1971), de Don McLean, cujo primeiro verso é quase tão conhecido como o próprio quadro.

Mais profundamente, a obra ajudou a estabelecer aquilo que a pintura podia fazer: dar forma a estados interiores. Esse caminho conduz ao Expressionismo e a pintores como Edvard Munch, autor de O Grito. E porque é que um céu pintado nos toca tão diretamente? A neurociência tem uma resposta parcial, que explicamos em O que a arte faz ao cérebro.

Do outro lado do Atlântico, o MASP, em São Paulo, guarda quatro pinturas de Van Gogh, três delas feitas no mesmo asilo de Saint-Rémy – entre elas Passeio ao Crepúsculo (1889-1890), cujo céu o pintor descreveu a Theo como «um céu noturno com uma lua entorpecedora».

Onde ver a obra hoje

A Noite Estrelada está no Museum of Modern Art (MoMA), 11 West 53rd Street, em Manhattan, Nova Iorque, na galeria 501, no quinto piso, dedicada à arte das décadas de 1880 a 1940.

  • Chegue cedo num dia de semana: a sala enche depressa.
  • Na mesma galeria: As Oliveiras, pintadas por Van Gogh em Saint-Rémy algumas semanas depois, em junho e julho de 1889 – uma companheira diurna para o céu noturno.
  • Horários e bilhetes: confirme no site do museu e compre em linha.
  • No mesmo piso: Cézanne, Gauguin, Picasso e outros mestres da arte moderna.

Perguntas frequentes

Van Gogh pintou A Noite Estrelada de noite?

Não. Pintou-a de dia, em várias sessões, a partir da memória e de esboços, porque não podia pintar no quarto do asilo.

Qual é a estrela mais brilhante do quadro?

O grande disco branco à esquerda do centro é Vénus, a «estrela da manhã» que Van Gogh viu antes do amanhecer.

A aldeia existia?

Não. Não era visível do quarto; Van Gogh inventou-a, com um campanário que lembra as igrejas holandesas.

O céu é cientificamente correto?

Num aspeto, sim: um estudo de 2024 mostrou que os remoinhos seguem a teoria da turbulência de Kolmogorov e, nas escalas mais pequenas, a lei de Batchelor.

Onde está o quadro?

No MoMA, em Nova Iorque, na galeria 501, no quinto piso.

Van Gogh olhou pela janela antes do amanhecer, guardou o céu na memória e pintou-o mais tarde, à luz do dia, acrescentando uma aldeia que não existia e um cipreste mais próximo do que a realidade permitia. O resultado é uma noite inventada – e, ao mesmo tempo, mais verdadeira do que qualquer observação: até as leis da física parecem concordar com ela.

Imagem: A Noite Estrelada – Vincent van Gogh, junho de 1889, MoMA, Nova Iorque. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

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