The Scream by Edvard Munch, 1893

O Grito

Sabia que O Grito foi roubado não uma, mas duas vezes — e que uma das versões desta obra icónica chegou a ser vendida em leilão por quase 120 milhões de dólares? Poucos quadros na história da arte conseguiram capturar o terror interior do ser humano com tanta intensidade. O Grito não é apenas uma imagem: é um espelho da ansiedade que todos, em algum momento, reconhecemos em nós próprios.

Em resumo

O que torna esta obra inesquecível?

Há obras de arte que descrevem o mundo. E há obras que descrevem o que sentimos por dentro. O Grito pertence à segunda categoria — e é por isso que atravessa gerações sem envelhecer.

O rosto central não tem género, não tem idade, não tem nacionalidade. É simplesmente uma figura humana em colapso emocional. Essa universalidade é o seu segredo. Além disso, Munch não pintou um acontecimento exterior: pintou uma experiência interior, quase um ataque de pânico avant la lettre.

Por isso, O Grito continua a ressoar: não porque seja tecnicamente perfeito, mas porque é brutalmente honesto. É raro uma obra conseguir isso.

Contexto histórico

Em 1893, a Europa vivia uma época de transformações profundas. A industrialização acelerava, as cidades cresciam de forma desordenada e os antigos valores religiosos e sociais estavam em crise. Freud começava a explorar o inconsciente. O indivíduo moderno sentia-se, pela primeira vez, verdadeiramente sozinho.

A arte académica tradicional já não conseguia expressar esta ansiedade. Surgiam novos movimentos — o Simbolismo, o Pós-Impressionismo — que procuravam ir além da superfície visível das coisas. Munch foi mais longe do que qualquer um.

O próprio artista descreveu numa entrada de diário a experiência que inspirou O Grito: caminhava com amigos quando o céu se tornou «vermelho sangue» e sentiu um «grito infinito que atravessava a natureza». Essa visão quase alucinatória tornou-se uma das imagens mais reconhecidas de toda a história da arte ocidental.

O título alemão original, Der Schrei der Natur («O Grito da Natureza»), sublinha que não se trata apenas de um grito humano — é a própria natureza que uiva.

Simbolismo e o que observar

Quando estiver diante de O Grito, comece pelo céu. As faixas vermelhas e alaranjadas não são um pôr do sol romântico: são quase violentas, como chamas líquidas. Criam uma sensação de ameaça iminente.

Note, em seguida, o contraste com as linhas azuis e frias do fiorde ao fundo. Essa tensão entre o quente e o frio, entre o caos e a calma, amplifica o desconforto emocional da composição.

A figura central merece atenção especial. A cabeça oval e alongada, as mãos premidas contra as têmporas, a boca aberta — tudo isto forma um rosto que parece dissolver-se. Curiosamente, a figura não grita: parece antes estar a ouvir um grito que vem de fora, da natureza ao seu redor.

Por fim, repare nas duas figuras sombrias ao fundo. São os amigos de Munch nessa tarde de 1893. A sua impassibilidade contrasta com o tormento da figura em primeiro plano — e torna a solidão ainda mais palpável.

As linhas onduladas que percorrem toda a composição — céu, água, terra — criam um ritmo visual quase hipnótico. Tudo parece vibrar, como se o mundo inteiro partilhasse a angústia da figura central.

Sobre Edvard Munch

Edvard Munch nasceu na Noruega em 1863 e cresceu rodeado de tragédia: perdeu a mãe e uma irmã ainda em criança, e o seu pai era um homem severamente religioso e perturbado. Estas perdas precoces moldaram de forma permanente a sua visão do mundo.

Estudou em Cristiânia (atual Oslo) e mais tarde viajou para Paris e Berlim, onde absorveu as influências do Pós-Impressionismo e do Simbolismo. No entanto, desenvolveu uma linguagem completamente própria, baseada na expressão emocional crua.

Para além de O Grito, Munch criou obras fundamentais como Madonna, A Puberdade e o ciclo O Friso da Vida, dedicado aos temas do amor, da ansiedade e da morte. Sofreu de problemas de saúde mental ao longo da vida, mas continuou a trabalhar até à morte, em 1944.

O seu contributo para o Expressionismo foi imenso: influenciou diretamente artistas como Ernst Ludwig Kirchner e a geração da Die Brücke alemã.

Legado e influência

Desde a sua criação, O Grito tornou-se muito mais do que uma obra de arte. É um símbolo cultural global. O rosto aparece em emojis, filmes de terror, publicidade, capas de revistas e até máscaras de carnaval.

Na história da arte, a obra abriu caminho para o Expressionismo alemão e, mais tarde, para o Expressionismo Abstrato americano. A ideia de que a pintura pode — e deve — exprimir estados interiores em vez de retratar a realidade exterior tornou-se central para toda a arte moderna.

Em 1994 e novamente em 2004, O Grito foi roubado do museu em Oslo. Ambas as versões foram recuperadas. Em 2012, uma das versões em pastel foi leiloada pela Sotheby’s por 119,9 milhões de dólares, tornando-se então a obra mais cara alguma vez vendida em leilão.

Onde ver a obra hoje

O Grito está exposto no Museu Nacional de Oslo, inaugurado na sua nova sede em junho de 2022. O museu fica junto ao porto de Oslo, perto da Ópera e do bairro de Aker Brygge — fácil de combinar com uma visita a pé pela cidade.

A obra encontra-se numa sala dedicada, com iluminação especialmente concebida para proteger os pigmentos sensíveis à luz. Recomenda-se comprar bilhete online com antecedência, sobretudo nos meses de verão, quando as filas podem ser longas.

No mesmo museu, pode ver outras obras fundamentais de Munch, como Madonna e A Puberdade. O acervo inclui também peças de Picasso, Matisse e Monet, o que torna a visita ainda mais enriquecedora.

Perguntas frequentes

Quantas versões de O Grito existem?

Munch criou quatro versões de O Grito entre 1893 e 1910, em diferentes técnicas: duas em têmpera, uma em pastel e uma litografia. Cada uma tem ligeiras variações de cor e composição.

O Grito foi mesmo roubado?

Sim. A versão em têmpera de 1893 foi roubada em 1994, durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Lillehammer. Uma segunda versão foi roubada em 2004. Ambas foram recuperadas pelas autoridades norueguesas.

O que significa a figura central de O Grito?

A figura representa a angústia existencial do ser humano moderno. Munch baseou-se numa experiência pessoal de pânico e dissociação que viveu durante um passeio. Não é um retrato de ninguém em concreto — é uma emoção universal.

Porque é que o céu é vermelho em O Grito?

Alguns investigadores sugeriram que Munch poderá ter observado os céus avermelhados causados pela erupção do vulcão Krakatoa em 1883, cujas cinzas afetaram as atmosferas de todo o mundo durante meses. Outros consideram que se trata de uma projeção puramente emocional.

Qual é o valor atual de O Grito?

As versões pertencentes ao Museu Nacional de Oslo não estão à venda. A última versão vendida em leilão, em 2012, atingiu 119,9 milhões de dólares — um valor histórico na altura.

Se O Grito despertou a sua curiosidade pelo Expressionismo e pela arte que explora o interior humano, explore outros artigos do nosso site sobre obras e artistas que mudaram a forma como vemos o mundo. Há muito mais por descobrir.

Imagem: The Scream – Edvard Munch (1893). Licença: Public Domain. Fonte: Wikimedia Commons.

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