Three versions of Van Gogh's The Bedroom side by side: Amsterdam 1888, Chicago 1889, Musée d'Orsay Paris 1889

Qual versão você está vendo? Obras famosas que existem em vários exemplares

Van Gogh pintou O quarto três vezes. Munch fez quatro versões de O grito, e só uma delas traz uma inscrição a lápis entre as nuvens. O pensador, de Rodin, existe em dezenas de bronzes autorizados e em nenhum original único. Se você já viajou para ver um quadro famoso e encontrou algo ligeiramente diferente da reprodução que conhecia, geralmente é por isso.

As reproduções escondem um problema com que os museus convivem todos os dias: muitas obras de arte famosas não são objetos únicos. Elas existem em vários exemplares – repetidas pelo próprio artista, fundidas depois de sua morte, impressas em tiragens ou copiadas no mesmo ateliê. As diferenças costumam ser pequenas o bastante para passar despercebidas e grandes o bastante para importar.

Este guia as organiza em seis tipos, com os detalhes concretos que permitem distinguir uma versão da outra.

Referência rápida

Obra Versões Onde
O quarto 3 pinturas Amsterdã, Chicago, Paris
O grito 2 pinturas, 2 pastéis, 1 litografia Oslo (dois museus)
Girassóis (Arles) 7 pintadas, 6 sobrevivem Londres, Amsterdã, Munique, Filadélfia, Tóquio, coleção particular
A torre de Babel 2 sobreviventes, 1 perdida Viena, Roterdã
O pensador 28 grandes bronzes No mundo todo
Pequena dançarina 1 em cera, dezenas de bronzes Washington + no mundo todo, inclusive São Paulo
Majas 2 pinturas Madri, na mesma sala
Mona Lisa 1 + uma cópia de ateliê Paris, Madri

1. Quadros que o artista pintou mais de uma vez

O quarto de Van Gogh – três, e as paredes nunca foram azuis

A primeira versão foi pintada em Arles, em outubro de 1888, quando Van Gogh preparava a Casa Amarela para a chegada de Gauguin. Em 1889, a tela foi danificada pela umidade durante uma inundação da casa e enviada a Theo, em Paris, para ser restaurada. Vincent – já internado no asilo de Saint-Rémy – pintou a partir dela duas réplicas: uma do mesmo tamanho e outra menor, para a mãe e a irmã.

  • Amsterdã, Museu Van Gogh – o original, outubro de 1888
  • Chicago, Art Institute – setembro de 1889, mesmo tamanho
  • Paris, Museu d’Orsay – 1889, visivelmente menor, com 57 × 74 cm

Como diferenciá-los: a cor das paredes e do piso varia, mas o sinal mais confiável são os dois retratos emoldurados acima da cama. Eles mostram quadros diferentes em cada versão.

Uma coisa vale para os três. As paredes não eram azuis. As análises de pigmento mostram que Van Gogh misturou um vermelho-laca ao azul para obter violeta, e numa carta descreveu as paredes, em francês, como violet pâle, violeta-pálido. O componente vermelho é sensível à luz e desbotou. As portas e os rodapés, que hoje parecem azuis, eram originalmente violeta-rosados.

Leia mais: O quarto

O grito – quatro, e só um tem inscrição

Munch fez duas pinturas, dois pastéis e uma litografia entre 1893 e 1910. Todos estão em Oslo, divididos entre duas instituições: o Museu Nacional e o Museu Munch. Nenhuma das duas tem o conjunto completo, e nenhuma expõe tudo ao mesmo tempo.

A pintura de 1893, no Museu Nacional, traz uma linha a lápis no céu, no canto superior esquerdo: só pode ter sido pintado por um louco. Durante décadas, achou-se que fosse uma pichação de algum visitante ofendido. Uma análise com infravermelho publicada em 2021 comparou a caligrafia com as cartas e os diários de Munch. Foi ele mesmo quem escreveu, muito provavelmente em 1895, depois que um estudante de medicina questionou publicamente sua sanidade.

Nenhuma outra versão tem essa inscrição.

Leia mais: O grito

Girassóis – sete, e um queimou

A série de Arles tem sete telas. Seis sobrevivem.

A sétima, Cinco girassóis, foi comprada em 1920 pelo empresário japonês Koyata Yamamoto e mantida em sua casa em Ashiya, perto de Kobe. Em 6 de agosto de 1945, a casa foi destruída num bombardeio aéreo, e o quadro se perdeu com ela. Hoje ele é conhecido apenas por fotografias em preto e branco tiradas antes da guerra.

Outra versão foi comprada na Christie’s em 1987 pela seguradora Yasuda Fire & Marine por 24,75 milhões de libras – na época, um recorde para qualquer pintura. Ela está exposta no Sompo Museum of Art, em Tóquio.

Leia mais: Girassóis

A torre de Babel – dois tamanhos, dois climas

Bruegel pintou o tema pelo menos três vezes. Uma miniatura sobre marfim, feita em Roma em colaboração com Giulio Clovio, está perdida. Sobrevivem dois painéis:

  • Viena, Kunsthistorisches Museum – 114 × 155 cm, com um rei e canteiros ajoelhados em primeiro plano
  • Roterdã, Museu Boijmans Van Beuningen – 60 × 75 cm, sem a cena do primeiro plano, com a torre mais avançada, mais escura e mais avermelhada, sob um céu que já se fecha

O museu de Roterdã está fechado para reforma; verifique antes de viajar.

Leia mais: A torre de Babel

2. Quadros diferentes com nomes parecidos demais

A noite estrelada não é Noite estrelada sobre o Ródano

São duas obras distintas, feitas com dez meses de diferença, em cidades diferentes e com métodos diferentes.

  • Noite estrelada sobre o Ródano – setembro de 1888, Arles. Pintada ao ar livre, à noite, na margem do rio, à luz dos lampiões a gás. Museu d’Orsay, Paris.
  • A noite estrelada – junho de 1889, Saint-Rémy. Pintada em ambiente fechado, de dia, a partir da memória e de esboços; Van Gogh não tinha permissão para pintar em seu quarto. Museu de Arte Moderna (MoMA), Nova York.

O quadro do Ródano é uma vista noturna de um lugar real. O famoso é uma reconstrução.

Leia mais: A noite estrelada

Degas pintou A aula de dança duas vezes

A versão de Nova York foi encomendada pelo barítono e colecionador Jean-Baptiste Faure; a de Paris é uma variante pintada na mesma época, com o mesmo mestre de balé, Jules Perrot.

  • Nova York, Metropolitan Museum – 1874, 83,5 × 77,2 cm
  • Paris, Museu d’Orsay – 1873–1876, 85 × 75 cm

As composições são próximas. O número e a posição das bailarinas mudam.

Leia mais: A aula de dança

3. Gravuras, em que simplesmente não existe original

Esta é a categoria mais mal compreendida. Uma xilogravura japonesa não é a reprodução de outra coisa. A gravura é a obra – e foi feita por quatro pessoas, não por uma.

O artista fornecia um desenho. Um entalhador cortava as matrizes de madeira. Um impressor as entintava e prensava. Um editor encomendava e vendia o resultado. Hokusai e Hiroshige nunca tocaram nas matrizes.

Impressões tiradas das mesmas matrizes variam bastante:

  • As primeiras impressões têm linhas nítidas; as posteriores ficam borradas pelo desgaste da madeira
  • Os degradês eram feitos à mão sobre a matriz a cada impressão, por isso não há dois céus idênticos
  • As combinações de cores mudavam de uma tiragem para outra

Vento suave, manhã clara, de Hokusai, é o caso mais evidente. Os colecionadores distinguem o raro Fuji rosa, das primeiras tiragens, do conhecido Fuji vermelho. O especialista Roger Keyes considerava as impressões rosadas as mais antigas e as mais próximas da intenção de Hokusai. Na versão posterior, o impressor acrescentou uma matriz, passou a usar um pigmento vermelho barato chamado bengara e recortou a matriz do verde. A imagem que todos conhecem pode ser a revisão comercial.

Leia mais: Vento suave, manhã clara · A grande onda de Kanagawa

4. Escultura, em que a fundição é toda a questão

O pensador – 28 bronzes, dois tamanhos

A figura nasceu em 1880 como um elemento de 70 cm de A porta do inferno, sentada no lintel. Rodin a ampliou para cerca de 180 cm em 1904.

Existem 28 grandes bronzes. Cerca de dez foram fundidos sob a supervisão de Rodin; os demais foram feitos depois de sua morte pelo Museu Rodin, nos termos de seu testamento.

Um deles está sobre o túmulo do próprio Rodin, em Meudon. Outro, diante do Cleveland Museum of Art, foi alvo de uma bomba em março de 1970 e desde então foi mantido danificado.

Leia mais: O pensador

Pequena dançarina – o original é de cera, e está em Washington

O que Degas expôs em 1881 foi uma figura de cera, com cabelo de verdade, corpete e saia de tecido, sapatilhas e uma fita no cabelo. É a única escultura que ele mostrou em público em vida.

Degas nunca fundiu a obra em bronze. Depois de sua morte, em 1917, seus herdeiros – com a ajuda do escultor Albert Bartholomé, amigo do artista – encomendaram à fundição parisiense Hébrard bronzes a partir das ceras encontradas no ateliê. As fontes divergem sobre o número exato de exemplares da Pequena dançarina, mas fala-se em algo entre duas e três dezenas.

A cera está na National Gallery of Art, em Washington. Todos os outros exemplares são póstumos – e as saias de tecido dos bronzes são trocadas de tempos em tempos, então não são tecidos do século XIX. Um desses bronzes está no Brasil, no MASP, em São Paulo.

Leia mais: Pequena dançarina de catorze anos

5. Pares feitos para serem vistos juntos

As duas Majas não foram pintadas como um conjunto

Essa é a suposição mais comum, e ela está errada. A maja nua já estava no gabinete privado de Manuel Godoy, primeiro-ministro do rei da Espanha, em 1800. A maja vestida só aparece nos documentos em 1808, num inventário dos bens de Godoy. Foi pintada depois, com uma pincelada mais solta.

Conta-se que, na casa de Godoy, a versão vestida ficava pendurada na frente da nua, num mecanismo de roldanas que a fazia deslizar para revelar a outra. É uma bela história, repetida em toda parte – mas nenhum documento da época a confirma. A primeira descrição da Maja nua, de 1800, a menciona sozinha, sem o par.

Hoje as duas estão no Prado, lado a lado.

Leia mais: A maja nua · A maja vestida

6. Versões que você não pode ver

Algumas existem e simplesmente não estão acessíveis.

O segundo Bal du moulin de la Galette, de Renoir – 78 × 114 cm, não um esboço – foi vendido na Sotheby’s em 17 de maio de 1990 por 78,1 milhões de dólares a Ryoei Saito, presidente da Daishowa Paper. Dois dias antes, o mesmo comprador havia pago 82,5 milhões de dólares pelo Retrato do doutor Gachet, de Van Gogh. Mais tarde ele disse que queria ser cremado com os dois quadros, frase que retirou depois de protestos internacionais. Saito morreu em 1996. O Renoir foi vendido de forma privada e não é exposto ao público desde então. Seu paradeiro não é divulgado.

Leia mais: Bal du moulin de la Galette

A Mona Lisa do Prado é um caso diferente. Considerada por muito tempo uma cópia tardia, foi restaurada em 2011–2012, e a camada de tinta preta que cobria o fundo foi removida. A análise do desenho subjacente mostrou que suas correções acompanham as do próprio Leonardo, traço por traço – ou seja, ela foi pintada ao lado do original, no mesmo ateliê, por um discípulo. É o mais perto que podemos chegar de ver a Mona Lisa sem quatro séculos de verniz.

Leia mais: Mona Lisa

O que isso significa antes de viajar

  • Confira qual versão o museu realmente tem. Três instituições podem afirmar, com toda a razão, que têm O quarto.
  • Obras em papel não ficam expostas permanentemente. Gravuras, desenhos e pastéis são mostrados por períodos limitados. Isso vale para todas as gravuras japonesas deste guia.
  • Empréstimos acontecem. Grandes obras viajam, às vezes por meses.
  • No caso das gravuras, compare on-line antes. Os acervos digitais dos museus permitem colocar impressões lado a lado – algo que nenhuma galeria permite.

A reprodução que você guarda na cabeça veio de algum lugar. Vale a pena saber de onde.

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