The Night Watch by Rembrandt, 1642

A Ronda Noturna – Nem noturna, nem ronda: o Rembrandt cortado, atacado e restaurado à vista do público

A Ronda Noturna não é noturna nem uma ronda. Rembrandt pintou, em 1642, uma companhia da guarda cívica de Amesterdão a sair em plena luz do dia; o nome só apareceu no fim do século XVIII, quando camadas de verniz escurecido tinham transformado a cena numa noite. Em 1715, a tela foi cortada para caber numa parede. Em 1975, foi rasgada à faca. E hoje, quem for ao Rijksmuseum vê-la-á dentro de uma câmara de vidro, enquanto restauradores retiram, milímetro a milímetro, o verniz antigo diante do público.

Em resumo

Um retrato de grupo que se mexe

No século XVII, as companhias da guarda cívica de Amesterdão encomendavam retratos coletivos para decorar as suas sedes. Normalmente, os membros apareciam alinhados, cada um com o rosto bem visível, porque cada um pagava a sua presença no quadro. A companhia dos arcabuzeiros, os kloveniers, encomendou a Rembrandt um desses retratos para o grande salão da sua sede, o Kloveniersdoelen.

Rembrandt fez outra coisa. Pintou a companhia no momento em que se põe em marcha: o capitão Frans Banninck Cocq, de preto com uma faixa vermelha, dá a ordem de partida ao tenente Willem van Ruytenburch, de amarelo-claro. Atrás deles, homens carregam armas, erguem lanças, rufam um tambor, desfraldam uma bandeira, conversam. Alguns rostos estão na luz; outros quase desaparecem na sombra.

Uma cena diurna que se tornou noite

Ao longo dos séculos, as camadas de verniz e a sujidade escureceram muito a tela. No fim do século XVIII, já se lhe chamava Nachtwacht, «ronda noturna» – um nome que não corresponde à cena. Os restauros mostraram que a ação se passa de dia, com uma luz forte que cai sobre as figuras principais.

Cortada em 1715

Em 1715, o quadro foi transferido para a câmara municipal de Amesterdão e não cabia na parede. Cortaram-se tiras dos quatro lados, sobretudo do esquerdo, eliminando duas figuras inteiras. Os pedaços nunca foram encontrados. Uma cópia do século XVII, feita por Gerrit Lundens antes do corte, mostra como era a composição completa. Em 2021, o Rijksmuseum usou inteligência artificial para reconstituir as tiras perdidas e expôs o quadro com os acrescentos durante alguns meses – contamos esta história em Nove coisas que aprendemos sobre quadros famosos.

Símbolos e o que observar

A mão e a sombra. O capitão estende a mão esquerda para a frente; a sombra dessa mão cai sobre o casaco claro do tenente. Um pormenor de luz que mostra quem manda.

A menina de dourado. No meio dos homens, uma menina iluminada leva presa à cintura uma galinha morta, com as garras bem visíveis. As garras eram o emblema dos arcabuzeiros: ela funciona como uma mascote viva da companhia.

O tambor e a bandeira. À direita, um tamborileiro; ao fundo, o porta-bandeira ergue o estandarte. É uma saída da companhia, não uma patrulha.

O claro-escuro. Rembrandt usa contrastes violentos de luz e sombra para criar profundidade e hierarquia, como num palco de teatro.

Atacada e protegida

A Ronda Noturna sofreu vários ataques. O mais grave aconteceu a 14 de setembro de 1975, quando um professor desempregado, Wilhelmus de Rijk, a cortou com uma faca de pão, deixando rasgões em ziguezague com até 30 centímetros. Em 1990, outro homem atirou ácido sobre a tela. Em ambos os casos, a pintura foi restaurada. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi retirada do museu, enrolada e escondida para escapar aos bombardeamentos e à ocupação.

Operação Ronda Noturna: um restauro à vista de todos

Desde o verão de 2019, o Rijksmuseum leva a cabo a Operação Ronda Noturna, o maior estudo e restauro alguma vez feitos desta obra. Tudo acontece diante do público, numa câmara de vidro construída na sala onde o quadro se encontra.

Depois de anos de investigação com técnicas de imagem de ponta, a equipa substituiu em 2022 a grade de madeira de 1975 por uma de alumínio, com tensores de mola que distribuem uniformemente a tensão da tela. No fim de 2024, começou a retirar as camadas de verniz aplicadas no restauro de 1975-1976, usando um tecido não tecido embebido numa quantidade medida de solvente. Em 2026, esse trabalho continua.

Um aviso para quem vai: durante a remoção do verniz, partes da pintura podem parecer baças e acinzentadas. É uma fase temporária, até à aplicação de um novo verniz.

Sobre Rembrandt

Rembrandt Harmenszoon van Rijn nasceu em Leiden em 1606 e instalou-se em Amesterdão, onde se tornou um dos retratistas mais procurados da cidade. Em junho de 1642, no mesmo ano da Ronda Noturna, morreu a sua mulher, Saskia. Em 1656, foi à falência. Continuou a pintar, com uma profundidade cada vez maior, até morrer em 1669. Na mesma época, em Delft, Vermeer pintava cenas silenciosas como A Leiteira e a Rapariga com Brinco de Pérola.

Legado e influência

A Ronda Noturna mostrou que um retrato de grupo podia ter a força dramática de uma cena histórica. Tornou-se o maior símbolo do Século de Ouro neerlandês e a obra mais visitada do Rijksmuseum. Hoje, o restauro público fez dela também um exemplo de como um museu pode transformar a conservação num espetáculo – e numa aula aberta.

Onde ver a obra hoje

A Ronda Noturna está no Rijksmuseum, na Museumplein, em Amesterdão, na sala da Ronda Noturna, no fim da Galeria de Honra.

  • Durante o restauro, o quadro continua visível, dentro da câmara de vidro, com restauradores a trabalhar numa plataforma móvel.
  • Bilhetes: compre em linha com antecedência. A entrada é gratuita para menores de 18 anos.
  • Chegue cedo, à abertura, para ver a sala com menos gente.
  • Na mesma galeria: A Leiteira, de Vermeer, e outras obras-primas do Século de Ouro.
  • Na mesma praça: o Museu Van Gogh e o Stedelijk Museum.

Perguntas frequentes

Porque se chama Ronda Noturna?

Porque, no fim do século XVIII, o verniz escurecido fazia a cena parecer noturna. Na verdade, passa-se de dia.

Quem são as figuras principais?

O capitão Frans Banninck Cocq, de preto com faixa vermelha, e o tenente Willem van Ruytenburch, de amarelo-claro.

O quadro foi cortado?

Sim, em 1715, para caber numa parede da câmara municipal de Amesterdão. Uma cópia de Gerrit Lundens mostra a composição original.

O quadro está em restauro?

Sim. Desde 2019, a Operação Ronda Noturna estuda e restaura a obra numa câmara de vidro visível ao público; a remoção do verniz começou no fim de 2024 e continua em 2026.

Qual é o tamanho da obra?

Cerca de 379,5 × 453,5 cm, segundo o registo do Rijksmuseum.

Rembrandt pintou uma companhia de cidadãos a sair à luz do dia, e o tempo transformou-a numa noite. Cortada, atacada, escondida, restaurada, a Ronda Noturna é hoje tratada diante do público, centímetro a centímetro. Quem a vê agora assiste a algo que nenhum visitante do passado pôde ver: a pintura a regressar, devagar, à sua própria luz.

Imagem: A Ronda Noturna – Rembrandt van Rijn, 1642, Rijksmuseum, Amesterdão. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

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