A Criação de Adão – Os dedos que não se tocam, Eva antes de Eva e o mito do cérebro
Os dois dedos mais famosos da história da arte não se tocam. Entre o indicador de Deus e o de Adão, no teto da Capela Sistina, há um pequeno vazio – e é nele que tudo acontece. Michelangelo pintou a cena por volta de 1511, de pé num andaime, a cerca de vinte metros do chão. Desde então, ela foi copiada, parodiada e reinterpretada sem parar: viram nela um útero, um cérebro, uma Eva escondida sob o braço de Deus. Algumas dessas leituras são sérias. Outras dizem mais sobre nós do que sobre Michelangelo.
Em resumo
- Artista: Michelangelo Buonarroti (1475-1564)
- Data: por volta de 1511, dentro da decoração do teto (1508-1512)
- Técnica: afresco
- Dimensões: cerca de 280 × 570 cm
- Movimento: Renascimento
- Onde está: Capela Sistina, Museus do Vaticano
Um escultor obrigado a pintar
Em 1508, o papa Júlio II encomendou a Michelangelo a decoração do teto da Capela Sistina. O artista, que se considerava antes de tudo escultor – o autor do Davi e da Pietà –, aceitou a contragosto. Durante quatro anos, pintou centenas de figuras numa abóbada de mais de quarenta metros de comprimento. O teto foi revelado ao público em 1512.
Ao contrário da lenda, Michelangelo não trabalhou deitado de costas. Pintava de pé, num andaime, com a cabeça inclinada para trás e o braço levantado – uma posição exaustiva que ele próprio descreveu, com humor amargo, num poema.
O centro do teto conta nove cenas do livro do Gênesis. A criação de Adão abre o grupo dedicado à criação e à queda da humanidade, seguida da Criação de Eva e do Pecado original.
A técnica do afresco
Num afresco, o pintor aplica os pigmentos sobre reboco ainda úmido, que os absorve ao secar. É preciso trabalhar rápido, por porções diárias chamadas giornate, cujos contornos ainda podem ser vistos de perto. Segundo estimativas baseadas nessas juntas de reboco, a figura inteira de Adão foi pintada em apenas quatro giornate. Não há como corrigir: uma vez seco o reboco, a pintura está fixada.
Dois corpos, dois movimentos
À esquerda, Adão está deitado numa encosta verde, o corpo em curva, o braço erguido com esforço mínimo. Seu pulso está mole, os dedos ligeiramente dobrados: ele ainda não recebeu a vida.
À direita, Deus chega voando, envolto num grande manto vermelho, rodeado de figuras que o sustentam. Seu dedo é firme, tenso, cheio de energia. Os dois corpos têm a mesma escala, como diz o Gênesis: o homem é criado à imagem de Deus. Mas tudo o que os cerca – a terra inerte de um lado, o movimento do outro – mostra a diferença entre quem dá a vida e quem a recebe.
A pose de Adão pode ter sido inspirada num camafeu antigo que pertencia ao cardeal Domenico Grimani, que vivia em Roma enquanto Michelangelo pintava o teto.
Símbolos e o que observar
O vazio entre os dedos. É o centro emocional da cena. A vida ainda não passou – ou está passando, sem contato físico. Michelangelo deixa o instante suspenso.
A figura sob o braço de Deus. Uma jovem mulher olha para Adão, protegida pelo braço esquerdo de Deus. Desde o crítico Walter Pater, no século XIX, muitos veem nela Eva, ainda não criada, e nas outras figuras as almas da humanidade futura. A leitura é amplamente aceita, mas contestada por alguns, já que a Igreja considerava herética a ideia da preexistência das almas. Outros viram nela a Virgem Maria.
O manto vermelho. Em 1990, o médico Frank Meshberger propôs, numa revista médica, que o contorno do manto e das figuras reproduzisse o de um cérebro humano em corte. A semelhança impressiona e a hipótese é legítima, mas é uma interpretação moderna, não uma intenção documentada de Michelangelo. Explicamos por que ela deve ser tratada com cautela em O que a arte faz com o cérebro.
A paisagem. Quase não há paisagem: apenas uma encosta verde e um céu claro. Toda a força está nos corpos.
Sobre Michelangelo
Michelangelo Buonarroti nasceu em 1475 em Caprese, na Toscana, e formou-se em Florença, sob a proteção dos Médici. Escultor, pintor, arquiteto e poeta, trabalhou para vários papas. Vinte anos depois do teto, voltou à Capela Sistina para pintar o Juízo Final, na parede do altar. Morreu em Roma em 1564, aos 88 anos.
No mesmo período, seu rival Leonardo da Vinci pintava a Mona Lisa, e o jovem Rafael decorava, a poucos metros da Sistina, as salas do papa.
Legado e influência
A criação de Adão é uma das imagens religiosas mais reproduzidas de todos os tempos. O gesto dos dois dedos estendidos tornou-se um emblema autônomo, usado em cartazes de filmes, campanhas publicitárias e logotipos, quase sempre sem o resto da cena.
Um português na conversa com Michelangelo. Para os leitores de língua portuguesa, há um capítulo especial nessa história. Em 1538, o jovem pintor lisboeta Francisco de Holanda foi enviado à Itália pelo rei D. João III. Em Roma, conheceu Michelangelo – que então pintava o Juízo Final na mesma capela – e, em outubro daquele ano, participou de três conversas sobre arte com ele e com a poetisa Vittoria Colonna. Holanda registrou esses encontros nos Diálogos em Roma, segunda parte do seu tratado Da Pintura Antiga, concluído em Lisboa em 1548, o primeiro tratado de pintura escrito na Península Ibérica. A fidelidade dos diálogos é discutida pelos historiadores, mas eles continuam sendo um dos raros testemunhos sobre as ideias de Michelangelo escritos por alguém que conversou com ele.
Onde ver a obra hoje
A criação de Adão está no teto da Capela Sistina, ao fim do percurso dos Museus do Vaticano, em Roma.
- Reserve on-line no site oficial dos Museus do Vaticano e confira horários e dias de fechamento.
- Chegue cedo: a Capela Sistina é o ponto mais concorrido do museu.
- Leve um binóculo pequeno: o afresco fica a cerca de vinte metros de altura.
- Procure a cena: fica no meio da abóbada, entre a Separação da terra e das águas e a Criação de Eva.
- Em Roma: a Judite decapitando Holofernes, de Caravaggio, está no Palazzo Barberini, e A vocação de São Mateus, também de Caravaggio, na igreja de São Luís dos Franceses.
Perguntas frequentes
Por que os dedos não se tocam?
Michelangelo escolheu o instante anterior ao contato. O pequeno vazio mantém a cena em suspenso: a vida está prestes a passar de Deus para Adão.
Michelangelo pintou deitado?
Não. Pintou de pé, num andaime, com a cabeça inclinada para trás – uma posição que ele próprio descreveu como exaustiva.
Quem é a mulher sob o braço de Deus?
A interpretação mais aceita é que seja Eva, ainda não criada. Outros historiadores veem nela a Virgem Maria ou uma figura simbólica.
Michelangelo escondeu um cérebro na pintura?
É uma hipótese proposta em 1990 pelo médico Frank Meshberger. A semelhança é real, mas nada prova que tenha sido intencional.
Algum português conheceu Michelangelo?
Sim. O pintor lisboeta Francisco de Holanda conversou com ele em Roma, em 1538, e registrou esses encontros nos Diálogos em Roma.
Michelangelo pintou dois corpos quase iguais e um pequeno vazio entre eles. Cinco séculos depois, esse vazio continua sendo preenchido por cada geração – com teologia, com medicina, com publicidade. O mais impressionante, talvez, é que ele resista a todas essas interpretações: no teto da Sistina, os dedos continuam sem se tocar.
Imagem: A Criação de Adão – Michelangelo, c. 1511, Capela Sistina, Vaticano. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.
