Las Meninas by Diego Velázquez, 1656

Las Meninas – Quem está realmente na sala de Velázquez

Quando você para diante de Las Meninas, no Museu do Prado, está exatamente onde estavam o rei e a rainha da Espanha. É o que mostra o pequeno espelho no fundo da sala, em que os dois aparecem refletidos. Velázquez pintou a si mesmo trabalhando numa tela enorme, cercado pela infanta, suas damas, dois anões e um cão – e todos olham para o lugar que você ocupa agora. O pintor napolitano Luca Giordano, ao ver o quadro em 1692, chamou-o de “teologia da pintura”. Mais de três séculos depois, ainda não sabemos com certeza o que Velázquez está pintando.

Em resumo

Uma sala do palácio, um instante

A cena se passa numa grande sala do antigo Alcázar de Madri, o palácio real. No centro, a infanta Margarida Teresa, de cinco anos, filha do rei Filipe IV. À sua volta, duas damas de companhia – as meninas do título: María Agustina Sarmiento, ajoelhada, oferece-lhe uma bebida numa pequena jarra vermelha; Isabel de Velasco, à direita, faz uma reverência. Mais à direita, a anã Maribárbola e o pequeno Nicolás Pertusato, que empurra com o pé um grande mastim sonolento. Atrás, uma dama de companhia mais velha e um guarda-damas conversam na penumbra.

À esquerda, de pincel e paleta na mão, está o próprio Velázquez, diante de uma tela gigantesca de que só vemos o verso. Ele olha para fora do quadro – para nós.

O espelho e o lugar do rei

No fundo da sala, entre dois quadros escuros, um pequeno retângulo brilhante: um espelho. Nele aparecem, um pouco borrados, o rei Filipe IV e a rainha Mariana da Áustria. Se eles estão refletidos ali, é porque estão de pé diante da cena, no lugar exato do espectador.

Daí a vertigem do quadro. Quem é o tema? A infanta, que parece ter vindo visitar o pintor? Os reis, que talvez estejam posando para ele? Ou nós, que ocupamos o lugar dos monarcas? Velázquez nunca deu a resposta. Ele transformou um retrato da corte numa reflexão sobre o ato de ver e de pintar – e colocou o espectador dentro da obra.

Símbolos e o que observar

A luz. Uma janela à direita ilumina a infanta e as damas; o fundo afunda na sombra. É uma luz natural, de fim de tarde, como a de qualquer grande sala.

A pincelada. De perto, os vestidos, os cabelos e as mãos se desfazem em manchas soltas e rápidas; de longe, tudo se recompõe. Velázquez antecipava em dois séculos o que os pintores modernos chamariam de pintura livre.

O homem na porta. No fundo, contra a luz de uma escada, um homem para no degrau, segurando uma cortina. É José Nieto Velázquez, camareiro da rainha, encarregado de abrir as portas para ela. Está entrando ou saindo? Ninguém sabe.

A cruz no peito. Velázquez traz no peito a cruz vermelha da Ordem de Santiago. Ele só recebeu a honraria em 1659, três anos depois do quadro: a cruz foi acrescentada mais tarde.

A bochecha da infanta. Olhe para o lado iluminado do rosto da infanta. Quase toda a bochecha esquerda não é de Velázquez: a tinta se perdeu num incêndio em 1734 e foi repintada pelo pintor da corte Juan García de Miranda.

Um quadro que escapou do fogo

Na véspera de Natal de 1734, o Alcázar de Madri foi destruído por um incêndio. Las Meninas estava entre as obras retiradas das chamas – segundo se conta, atirada por uma janela – e sofreu danos. Além da bochecha repintada, a tela foi cortada levemente nos lados esquerdo e direito: a composição que vemos hoje é um pouco mais estreita que a de Velázquez.

Durante muito tempo, o quadro nem tinha esse nome. Um inventário de 1666 o descreve como o retrato da imperatriz com suas damas e uma anã; depois, ele foi chamado simplesmente de A Família. O título Las Meninas aparece no catálogo do Prado de 1843 – e pegou.

O quadro entrou no Museu do Prado quando o museu foi inaugurado, em 1819. O Prado não o empresta: para vê-lo, é preciso ir a Madri.

Sobre Diego Velázquez

Diego Rodríguez de Silva y Velázquez nasceu em Sevilha em 1599. Em 1623, aos 24 anos, foi chamado a Madri pelo poderoso ministro do rei, o conde-duque de Olivares, e se tornou pintor de Filipe IV, a quem serviu por quase quatro décadas. Viajou duas vezes à Itália, em 1629 e 1649. Morreu em Madri em 6 de agosto de 1660, pouco depois de organizar as cerimônias do casamento real na fronteira com a França, tarefa que o esgotou.

Seu realismo e sua pincelada livre fascinaram os pintores do século XIX. Manet, que viajou a Madri em 1865, chamou-o de “o pintor dos pintores”.

Legado e influência

Em 1957, Pablo Picasso se fechou em seu ateliê e pintou 58 variações de Las Meninas, hoje reunidas no Museu Picasso de Barcelona. Em 1966, o filósofo Michel Foucault abriu seu livro As Palavras e as Coisas com uma análise do quadro, que se tornou um texto central sobre a representação.

A ideia de pôr o espectador dentro da obra liga Las Meninas a outras pinturas com espelhos, como O retrato dos Arnolfini, de Van Eyck, e Um bar no Folies-Bergère, de Manet. E ajuda a entender por que alguns quadros nos tocam tão de perto, como explicamos em O que a arte faz com o cérebro.

E no Brasil?

O homem que levou Velázquez à corte está em São Paulo. O MASP guarda um quadro do próprio Velázquez: o Retrato do Conde-Duque de Olivares, de 1624. Olivares, primeiro-ministro de Filipe IV, foi quem chamou o jovem pintor sevilhano a Madri e o fez pintor da corte. Segundo o MASP, conserva-se o documento de encomenda do retrato, de 1624, e ele é o primeiro de pelo menos cinco retratos do conde-duque que chegaram até nós. Sem Olivares, Velázquez provavelmente nunca teria pintado Las Meninas.

Um rei que também reinou sobre o Brasil. Filipe IV, pai da infanta do quadro, foi até 1640 também rei de Portugal – e, portanto, do Brasil –, no período chamado de União Ibérica.

Onde ver a obra hoje

Las Meninas está no Museu do Prado, em Madri, na sala 012, dedicada a Velázquez.

  • Horários: de segunda a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 19h. Os horários mudam de tempos em tempos – confira no site do museu.
  • Entrada gratuita nas duas últimas horas de cada dia, mas sem reserva: a fila se forma antes, e a sala 012 é o primeiro destino de todos.
  • Chegue na abertura e dê alguns passos para trás e para a frente: os efeitos do espaço só funcionam ao vivo.
  • No mesmo museu: outras obras de Velázquez, O três de maio de 1808 e A maja nua, de Goya, e O jardim das delícias terrenas, de Bosch.
  • Em São Paulo: o Retrato do Conde-Duque de Olivares, de Velázquez, no MASP.

Perguntas frequentes

Quem são as pessoas no quadro?

A infanta Margarida Teresa, de cinco anos; suas damas María Agustina Sarmiento e Isabel de Velasco; os anões Maribárbola e Nicolás Pertusato; uma dama mais velha e um guarda-damas; o camareiro José Nieto Velázquez, na porta; e o próprio Velázquez, diante da tela.

O que aparece no espelho?

O rei Filipe IV e a rainha Mariana. O reflexo sugere que eles estão no lugar do espectador.

Quem chamou o quadro de “teologia da pintura”?

O pintor napolitano Luca Giordano, que o viu em 1692. Manet, por sua vez, chamou Velázquez de “o pintor dos pintores”.

O quadro foi danificado?

Sim. Foi salvo do incêndio do Alcázar em 1734, mas perdeu parte da pintura – a bochecha esquerda da infanta foi repintada – e foi levemente cortado nos lados.

Existe um Velázquez no Brasil?

Sim: o Retrato do Conde-Duque de Olivares (1624), no MASP, em São Paulo.

Velázquez pintou uma sala comum do palácio, num momento comum, e pôs no fundo um espelho. Com isso, transformou um retrato de família numa pergunta que ninguém conseguiu responder: quem está olhando para quem? No Prado, diante do quadro, a resposta é simples e vertiginosa – você está no lugar do rei.

Imagem: Las Meninas – Diego Velázquez, 1656, Museu do Prado, Madri. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

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