Ninfeias (1906) – A lagoa de Giverny sem horizonte, céu nem margem
Neste quadro não há céu, nem horizonte, nem margem. Só água, folhas redondas e flores flutuando, como se você estivesse debruçado sobre a lagoa de Monet em Giverny, sem ter onde apoiar o olhar. Monet assinou e datou a tela no canto inferior direito: “Claude Monet 1906”. Pintou cerca de 250 quadros de ninfeias nos últimos trinta anos da vida – e este, que um colecionador de Chicago comprou por 20 mil dólares, é um dos que mostram o momento em que ele decidiu tirar o mundo de cima da água.
Em resumo
- Artista: Claude Monet (1840-1926)
- Data: 1906, assinado e datado
- Título na época: Les nymphéas, paysage d’eau, série de 1906
- Técnica: óleo sobre tela
- Dimensões: 89,9 × 94,1 cm
- Movimento: Impressionismo
- Onde está: Art Institute of Chicago, coleção Martin A. Ryerson, 1933
Um jardim feito para ser pintado
Em 1883, Monet se instalou em Giverny, uma aldeia da Normandia, a cerca de 70 quilômetros de Paris. Dez anos depois, comprou um terreno do outro lado da estrada e mandou cavar uma lagoa, alimentada por um braço do rio Epte, onde plantou ninfeias – os nenúfares – e construiu uma ponte em estilo japonês. Ele não pintava a natureza tal como a encontrava: criou um jardim inteiro para depois pintá-lo.
A partir do fim da década de 1890, a lagoa se tornou praticamente seu único tema. Nos primeiros quadros, ainda se vê a ponte japonesa, as margens, as árvores. Depois, pouco a pouco, Monet vai se aproximando da água, até que só reste ela.
A água sem o mundo em volta
Este quadro de 1906 é um desses passos decisivos. O enquadramento é quase quadrado e cortado bem de perto. Não há horizonte que nos diga onde estamos, nem margem que dê escala. As ninfeias flutuam em ilhas de folhas verdes e flores rosadas e brancas, e a superfície da água reflete um céu que não vemos: azuis claros, nuvens, a luz do dia.
O resultado é uma imagem ao mesmo tempo precisa e vertiginosa. O olhar não sabe se está vendo a água, o reflexo do céu ou as plantas debaixo da superfície. Monet passou a pintar não um lugar, mas uma experiência de olhar.
Símbolos e o que observar
O céu invisível. Procure as nuvens refletidas na água: é a única presença do céu no quadro.
As ilhas de folhas. Elas criam uma diagonal que guia o olhar do primeiro plano para o fundo e dá profundidade a uma superfície plana.
A pincelada. De perto, camadas sobrepostas de tinta, aplicadas com rapidez; de longe, tudo se organiza numa cena calma.
A assinatura. No canto inferior direito, em tinta castanho-avermelhada: “Claude Monet 1906”.
O formato. Quase quadrado, sem direção privilegiada: a lagoa poderia continuar em todos os sentidos.
De Giverny a Chicago
Na galeria do marchand Paul Durand-Ruel, o quadro levava o título Les nymphéas, paysage d’eau, série de 1906: “Ninfeias, paisagem de água, série de 1906”. Foi comprado pelo colecionador de Chicago Martin A. Ryerson por 20 mil dólares. Ryerson emprestou-o ao Art Institute de forma intermitente desde, pelo menos, 1921 e, ao morrer, em 1932, deixou-o ao museu, que o recebeu em 1933.
Chicago foi uma das cidades que mais cedo se apaixonaram por Monet. Em 1891, Bertha e Potter Palmer compraram cerca de vinte quadros seus – e chegaram a reunir uns noventa. Por isso o Art Institute guarda hoje uma das mais ricas coleções de Monet fora da França.
Sobre Claude Monet
Claude Monet nasceu em Paris em 1840 e cresceu no Havre. Foi um dos fundadores do Impressionismo, movimento que tirou o nome de um quadro seu, Impressão, nascer do sol. Ao longo da vida, pintou séries inteiras de um mesmo motivo sob diferentes luzes – medas, catedral de Rouen, pontes de Londres –, como explicamos em Qual versão você está vendo?
A partir de 1912, uma catarata foi alterando sua percepção das cores. Ele continuou pintando, com uma paleta cada vez mais quente e uma pincelada cada vez mais livre, até morrer em Giverny, em 1926.
Monet era também um grande colecionador de estampas japonesas, que ainda hoje cobrem as paredes de sua casa em Giverny – estampas como A grande onda de Kanagawa, de Hokusai. A ponte japonesa do jardim é uma homenagem direta a esse universo.
Legado e influência
As grandes telas de ninfeias dos últimos anos de Monet, com sua superfície sem horizonte e seus enormes formatos, foram redescobertas depois da Segunda Guerra Mundial, quando os pintores da abstração passaram a ver nelas uma antecipação da pintura que envolve o espectador. Hoje, as ninfeias estão entre as imagens mais reproduzidas da história da arte.
O último grande projeto de Monet foi um conjunto de painéis monumentais de ninfeias que ele ofereceu ao Estado francês depois do armistício de 1918. Instalados em duas salas ovais do Museu da Orangerie, em Paris, foram abertos ao público em 1927, alguns meses depois de sua morte.
E no Brasil?
A água de Monet em São Paulo. O MASP guarda A canoa sobre o Epte, de cerca de 1890, comprada pelo museu em 1953. Nela, as enteadas de Monet, Suzanne e Blanche Hoschedé, passeiam num barco sobre o rio que banhava a propriedade de Giverny. Numa carta ao crítico Gustave Geffroy, de 22 de junho de 1890, Monet falava justamente desse quadro: estava de novo às voltas com coisas impossíveis de fazer, “a água com a vegetação ondulante no fundo”.
Um anúncio das ninfeias. Segundo o MASP, o que torna a obra única é que, por uma vez, Monet não quis pintar os reflexos da superfície, mas a profundidade da água – uma dimensão que só reapareceria mais de trinta anos depois, nas suas ninfeias tardias. O MASP possui ainda A ponte japonesa sobre a lagoa das ninfeias em Giverny (1920-1924) e, entre maio e agosto de 2025, apresentou a exposição A ecologia de Monet, com 32 pinturas do artista, muitas delas inéditas no hemisfério sul.
Onde ver a obra hoje
Este quadro está no Art Institute of Chicago, nos Estados Unidos, ao lado do Millennium Park.
- Horários e ingressos: confira no site do museu os dias de abertura e reserve on-line.
- No mesmo museu: outros Monet da coleção, uma das versões de O quarto, de Van Gogh, e grandes obras do pós-impressionismo.
- Em Paris: os grandes painéis das ninfeias no Museu da Orangerie e o Museu Marmottan Monet.
- Em Giverny: a casa e o jardim de Monet, com a lagoa e a ponte japonesa, abertos ao público na primavera e no verão.
- Em São Paulo: A canoa sobre o Epte e A ponte japonesa, no MASP.
Perguntas frequentes
Quantas ninfeias Monet pintou?
Cerca de 250 quadros, do fim da década de 1890 até sua morte, em 1926.
Por que não há horizonte neste quadro?
Monet enquadrou a lagoa de muito perto para eliminar margens e céu. O céu aparece só refletido na água.
Como o quadro chegou a Chicago?
Foi comprado pelo colecionador Martin A. Ryerson por 20 mil dólares e legado ao Art Institute of Chicago, que o recebeu em 1933.
Monet ficou cego?
Não completamente, mas a partir de 1912 sofreu de catarata, que alterou sua percepção das cores. Continuou pintando até o fim da vida.
Há obras de Monet no Brasil?
Sim, no MASP, em São Paulo: A canoa sobre o Epte (c. 1890) e A ponte japonesa sobre a lagoa das ninfeias em Giverny (1920-1924).
Monet passou trinta anos debruçado sobre a mesma lagoa. Neste quadro de 1906, ele tirou o céu, as margens e o horizonte, e deixou só a água. Mais de um século depois, quem para diante dele ainda tem a mesma sensação: a de olhar para dentro de algo que não tem fundo.
Imagem: Ninfeias – Claude Monet, 1906, Art Institute of Chicago. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.
