The Garden of Earthly Delights by Hieronymus Bosch, 1505

O Jardim das Delícias Terrenas – O tríptico de Bosch entre o paraíso e o inferno

Em 30 de julho de 1517, um cônego italiano em viagem pela Europa, Antonio de Beatis, entrou no palácio dos condes de Nassau, em Bruxelas, e anotou em seu diário que tinha visto um quadro cheio de “coisas tão bizarras” que era impossível descrevê-las a quem não as tivesse visto. É a primeira menção conhecida de O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch. Cinco séculos depois, ninguém conseguiu explicar completamente o que ele significa – nem mesmo a partitura musical pintada nas nádegas de um condenado, que só foi tocada em 2014.

Em resumo

Um mundo dentro de uma esfera

Fechado, o tríptico mostra quase só cinza: uma grande esfera transparente que contém a Terra no terceiro dia da Criação, com plantas e montanhas, mas ainda sem homens nem animais. No alto, à esquerda, Deus observa sua obra. É um início silencioso, quase abstrato.

Ao abrir os painéis, a cor explode. À esquerda, o Paraíso: Deus apresenta Eva a Adão num jardim cheio de animais reais e fantásticos, em torno de uma fonte cor-de-rosa. No centro, um imenso jardim povoado por centenas de figuras nuas que brincam, se abraçam, cavalgam animais, comem frutas gigantes. À direita, o Inferno: escuro, gelado e em chamas ao mesmo tempo, onde os condenados são torturados por máquinas, instrumentos musicais e criaturas monstruosas.

Paraíso, loucura e danação?

A leitura mais aceita lê o tríptico da esquerda para a direita: a criação do primeiro casal, o pecado que se espalha pela humanidade, o castigo final. O painel central não mostraria um paraíso de prazeres inocentes, mas um mundo entregue às delícias passageiras – como as frutas enormes, morangos e amoras, que simbolizavam a fugacidade dos prazeres. Até o antigo nome do quadro em Espanha, la pintura del madroño (“a pintura do medronheiro”), remete a uma dessas frutas.

Mas a obra resiste a qualquer explicação única. Para alguns, é uma advertência moral; para outros, a visão de uma humanidade antes do pecado, ou uma alegoria de crenças secretas. O próprio Bosch não deixou nenhum texto sobre ela.

Símbolos e o que observar

A fonte do Paraíso. No painel esquerdo, uma alta estrutura rosa, meio vegetal, meio mineral, ergue-se num lago. Dentro dela, uma coruja espreita: já um sinal de mal no Éden.

As frutas gigantes. No centro, os corpos se escondem dentro de morangos, cerejas e conchas enormes. O prazer é doce, mas efêmero.

O cortejo de cavaleiros. Ao redor de um lago circular, homens montados em cavalos, camelos, javalis e grifos giram como num carrossel, enquanto mulheres se banham no centro.

O Homem-Árvore. No Inferno, uma figura com corpo de ovo quebrado e pernas de tronco de árvore olha para trás, por cima do ombro. Dentro de seu corpo, há uma taverna. Muitos veem em seu rosto um possível autorretrato de Bosch.

A música do inferno. No painel direito, os instrumentos musicais se tornam instrumentos de tortura: um homem está crucificado numa harpa, outro aprisionado num alaúde. Nas nádegas de um condenado, esmagado sob o alaúde, está pintada uma partitura. Em 2014, uma estudante norte-americana, Amelia Hamrick, a transcreveu e gravou – contamos essa história em Nove coisas que descobrimos sobre pinturas famosas.

Dos Nassau a Filipe II

Não se sabe quem encomendou a obra. Em 1517, ela estava no palácio dos Nassau, em Bruxelas, provavelmente pertencente ao conde Henrique III de Nassau. Em 1568, durante a revolta dos Países Baixos contra a Espanha, os bens de Guilherme de Orange-Nassau foram confiscados pelo duque de Alba, e o tríptico passou para mãos espanholas.

O rei Filipe II, grande admirador de Bosch, comprou-o num leilão e o enviou para o mosteiro do Escorial, onde chegou em 8 de julho de 1593. A obra ficou lá por mais de três séculos, até ser transferida para o Museu do Prado em 1939.

Em 2016, para os 500 anos da morte de Bosch, o Prado organizou uma grande exposição dedicada ao pintor, que reuniu cerca de 25 obras a ele atribuídas e atraiu mais de meio milhão de visitantes.

Sobre Hieronymus Bosch

Jheronimus van Aken nasceu por volta de 1450 em ’s-Hertogenbosch, nos Países Baixos, e adotou o nome da cidade para assinar seus quadros: Bosch. Viveu ali a vida inteira, numa família de pintores, e foi membro de uma confraria religiosa dedicada à Virgem. Morreu em 1516. Hoje se atribuem a ele com segurança cerca de 25 pinturas, e quase nenhum documento pessoal seu sobreviveu.

Legado e influência

Bosch teve imitadores ainda em vida e um herdeiro de gênio na geração seguinte: Pieter Bruegel, o Velho, que retomou suas multidões e seus mundos fervilhantes em obras como A torre de Babel. No século XX, os surrealistas viram nele um precursor, e suas criaturas híbridas passaram para o cinema, a ilustração e a cultura pop.

E no Brasil?

Um Bosch em São Paulo. O MASP guarda uma pintura atribuída a Hieronymus Bosch: As tentações de Santo Antão, datada de cerca de 1495-1500. Alguns estudiosos acreditam que seja uma primeira versão do painel central do famoso tríptico homônimo de Bosch conservado em Lisboa; a atribuição, como em muitas obras ligadas ao pintor, é discutida. Depois de adquirida pelo museu, ela participou das turnês de exposições do acervo do MASP na Europa e nos Estados Unidos.

Um rei que governava o Brasil. Quando o tríptico chegou ao Escorial, em 1593, Filipe II da Espanha era também rei de Portugal, como Filipe I, e, portanto, soberano do Brasil – foi o período da União Ibérica (1580-1640).

Onde ver a obra hoje

O Jardim das Delícias Terrenas está no Museu do Prado, em Madri, nas salas dedicadas à pintura flamenga.

  • Horários: o Prado abre todos os dias – de segunda a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 19h. Confira no site do museu.
  • Entrada gratuita nas duas últimas horas de cada dia, sem reserva; a fila se forma antes.
  • Reserve pelo menos meia hora só para o tríptico: os detalhes são infinitos. Pergunte também se os painéis exteriores estão visíveis.
  • No mesmo museu: Las Meninas, de Velázquez, e O três de maio de 1808, de Goya.
  • Em São Paulo: As tentações de Santo Antão, atribuída a Bosch, no MASP.

Perguntas frequentes

O que significa O Jardim das Delícias Terrenas?

A leitura mais aceita vê nele uma progressão do Paraíso ao Inferno, passando por um mundo entregue aos prazeres passageiros. Mas há outras interpretações, e Bosch não deixou nenhuma explicação.

Quem encomendou o tríptico?

Não se sabe. Em 1517 ele estava no palácio dos Nassau, em Bruxelas. Foi confiscado pelo duque de Alba em 1568 e comprado por Filipe II, que o enviou ao Escorial em 1593.

Existe mesmo uma partitura pintada no quadro?

Sim, nas nádegas de um condenado, no painel do Inferno. Ela foi transcrita e gravada em 2014.

Qual é o tamanho do tríptico?

Aberto, mede 205,5 × 384,9 cm.

Há obras de Bosch no Brasil?

O MASP, em São Paulo, possui As tentações de Santo Antão, uma pintura atribuída a Bosch, possivelmente uma primeira versão do painel central do tríptico de Lisboa.

Bosch pintou o mundo dentro de uma bola de vidro, depois o abriu e o encheu de corpos, frutas, monstros e música. Ele não deixou nenhuma chave para lê-lo – e talvez seja por isso que, cinco séculos depois, ainda se possa passar uma hora diante dele e descobrir, a cada minuto, uma figura que ninguém tinha notado.

Imagem: O Jardim das Delícias Terrenas – Hieronymus Bosch, c. 1490-1500, Museu do Prado, Madri. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

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