A Sunday on La Grande Jatte by Georges Seurat, 1886

Um Domingo na Grande Jatte – Seurat ponto a ponto, um amarelo que escureceu e uma moldura pintada depois

O título completo do quadro é «Um Domingo na Grande Jatte — 1884», mas Seurat só o terminou em 1886, depois de dois anos de trabalho e dezenas de estudos. Pintou-o com milhares de pequenos toques de cor pura, sem os misturar na paleta, para que fosse o olho do espectador a fazer a mistura. Três anos depois, voltou à tela e acrescentou-lhe à volta uma orla pintada, feita de pontos. E uma das cores que escolheu – um amarelo novo, à base de zinco – escureceu com o tempo: os relvados que hoje vemos não são exatamente os que ele pintou.

Em resumo

Uma tarde de domingo junto ao Sena

A Grande Jatte é uma ilha comprida no rio Sena, nos arredores de Paris, que no fim do século XIX era um lugar de passeio para parisienses de todas as classes. Seurat mostra-a numa tarde de domingo: casais elegantes, uma ama, soldados, um homem a tocar trompa, crianças, cães, uma pequena macaca pela trela, barcos à vela e a remos no rio. São dezenas de figuras, quase todas imóveis, de perfil ou de frente, como estátuas.

Esta imobilidade é propositada. Seurat não queria captar um instante fugaz, como os impressionistas, mas construir uma cena sólida, ordenada, quase intemporal – uma espécie de friso antigo com personagens modernas.

A ciência da cor

Seurat estudou as teorias de cientistas da cor, como o químico Michel-Eugène Chevreul e o físico Ogden Rood, que explicavam a forma como as cores se influenciam mutuamente. Daí nasceu a sua técnica: em vez de misturar os pigmentos na paleta, aplicava pequenos toques de cores puras lado a lado. De longe, o olho funde-os, e a cor resultante deveria parecer mais luminosa. A técnica passou a chamar-se pontilhismo, e o movimento, neoimpressionismo.

A obra foi construída por fases, ao longo de dois anos, a partir de muitos esboços pintados e desenhados e de várias telas preparatórias, em que Seurat definiu primeiro a paisagem e depois as figuras.

Uma orla e uma moldura branca

Quando foi exposto em 1886, o quadro tinha uma moldura branca, escolha muito invulgar na época. Em 1888-1889, Seurat voltou à tela e pintou-lhe à volta uma estreita orla de pontos, de cores escolhidas para fazer a transição entre a pintura e a moldura. Essa orla continua lá: procure-a nos limites da tela.

Símbolos e o que observar

As sombras coloridas. Nada é preto: as sombras na relva são feitas de azuis, violetas e verdes.

O amarelo que escureceu. Seurat usou um pigmento novo, um amarelo de zinco, para os reflexos de sol na relva. Com o tempo, escureceu e ficou acastanhado, e a pintura perdeu parte da luminosidade original.

A senhora com a macaca. À direita, uma mulher elegante passeia com um homem e leva uma pequena macaca pela trela. Alguns historiadores leram a macaca como um símbolo irónico de ostentação ou de costumes duvidosos; é uma hipótese, não uma certeza.

A menina de branco. Ao centro, uma menina vestida de branco caminha de mão dada com uma mulher – uma das poucas figuras que parece vir na nossa direção.

A geometria. Sombrinhas, chapéus, velas e troncos de árvores repetem curvas e verticais, como numa partitura.

De Paris a Chicago

O quadro foi apresentado em 1886 na oitava e última exposição dos impressionistas e, no fim do verão, na exposição dos Artistas Independentes. Fez de Seurat, aos 26 anos, o líder de uma nova vanguarda.

Em 1924, o colecionador de Chicago Frederic Clay Bartlett e a mulher, Helen Birch Bartlett, compraram-no por 20 mil dólares. O quadro foi enviado diretamente para o Art Institute. Helen morreu de cancro em outubro de 1925; no ano seguinte, Frederic doou a coleção do casal ao museu, em sua memória. Em 1958, emprestado ao Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o quadro escapou a um incêndio no museu.

Sobre Georges Seurat

Georges Seurat nasceu em Paris em 1859, estudou na Escola de Belas-Artes e desenvolveu um método de trabalho rigoroso, quase científico. Morreu em março de 1891, com apenas 31 anos, de uma doença súbita – provavelmente uma infeção como a difteria ou a meningite. Deixou poucas grandes telas, entre elas Banhistas em Asnières, As Modelos – em cujo fundo aparece a própria Grande Jatte – e O Circo.

Legado e influência

O pontilhismo de Seurat foi continuado por Paul Signac e marcou Van Gogh, Matisse e muitos outros. No mesmo museu está uma das versões de O Quarto, de Van Gogh, que, em Paris, também experimentou pinceladas divididas sob a influência dos neoimpressionistas.

A obra entrou na cultura popular. Inspirou o musical da Broadway Sunday in the Park with George (1984), de Stephen Sondheim, e uma cena célebre do filme O Rei dos Gazeteiros (1986), em que Cameron contempla o quadro até se perder nos pontos. Doze anos antes da Grande Jatte, um pequeno quadro de Monet, Impressão, Nascer do Sol, tinha dado nome ao movimento que Seurat queria superar.

Onde ver a obra hoje

Um Domingo na Grande Jatte está no Art Institute of Chicago, na galeria 240, junto ao Millennium Park.

  • Horários e bilhetes: confirme no site do museu antes de ir.
  • Mude de distância: de perto, veja os pontos e a orla pintada; de longe, a cena inteira recompõe-se.
  • No mesmo museu: estudos de Seurat para o quadro, obras de outros neoimpressionistas e uma das versões de O Quarto, de Van Gogh.

Perguntas frequentes

Porque é que o título diz 1884, se o quadro é de 1886?

O ano no título indica a época da cena; Seurat trabalhou na tela de 1884 a 1886 e acrescentou a orla pintada em 1888-1889.

O que é o pontilhismo?

Uma técnica em que o pintor aplica pequenos toques de cor pura lado a lado, sem os misturar, para que o olho os combine à distância.

As cores mudaram?

Sim. O amarelo de zinco que Seurat usou nos reflexos da relva escureceu com o tempo.

Como chegou o quadro a Chicago?

Foi comprado em 1924 por Frederic Clay e Helen Birch Bartlett por 20 mil dólares e doado ao Art Institute em 1926.

Qual é o tamanho da obra?

207,5 × 308,1 cm – mais de três metros de largura.

Seurat passou dois anos a pôr pontos de cor numa tela de três metros para mostrar uma tarde de domingo que dura para sempre. Depois, voltou para lhe pintar a orla. O tempo escureceu um dos seus amarelos, mas não a ideia: a de que até um passeio no parque pode ser construído com a precisão de uma ciência.

Imagem: Um Domingo na Grande Jatte – 1884 – Georges Seurat, 1884-1886, Art Institute of Chicago. Licença: domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

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