Nove coisas que aprendemos sobre quadros famosos depois de o seu manual ter sido impresso
O fundo de Rapariga com Brinco de Pérola não é preto. Era uma cortina verde, e só o sabemos desde 2018. A inscrição em O Grito, de Munch, não é vandalismo – é a caligrafia do próprio Munch, confirmada em 2021. A mulher da Mona Lisa foi identificada para lá de qualquer dúvida razoável em 2005, numa biblioteca de Heidelberg. Se aprendeu sobre estes quadros na escola, aprendeu uma versão anterior.
A história da arte costuma ser apresentada como um assunto encerrado. Não é. Os laboratórios de conservação, as câmaras de infravermelhos e as análises de pigmentos continuam a produzir descobertas que derrubam o que os catálogos diziam dez anos antes – e as reproduções em circulação demoram anos a acompanhar, quando acompanham.
Eis nove casos das últimas duas décadas em que a resposta mudou.
2005 – Sabemos finalmente quem ela era
A identidade da modelo da Mona Lisa foi debatida durante quatro séculos. Entre as candidatas estavam Isabel de Aragão, a mãe de Leonardo e até o próprio Leonardo, disfarçado.
Em 2005, Armin Schlechter, especialista em manuscritos da Biblioteca da Universidade de Heidelberg, catalogava um incunábulo – uma edição de 1477 das cartas de Cícero. Na margem, um funcionário florentino chamado Agostino Vespucci tinha escrito uma nota datada de outubro de 1503, comparando Leonardo ao pintor grego Apeles e referindo aquilo em que ele trabalhava nesse momento. Uma das obras mencionadas é um retrato de Lisa del Giocondo.
Vespucci era escrivão da chancelaria florentina e conhecia Leonardo pessoalmente. A nota é da época, casual, e não tinha qualquer razão para mentir.
A questão está encerrada. A maior parte dos textos de divulgação ainda não deu por isso.
Leia mais: Mona Lisa
2014 – O minuto exato em que Monet começou a pintar
O Museu Marmottan pediu a Donald Olson, astrofísico da Texas State University, que datasse com precisão Impressão, Nascer do Sol. Ele tratou o quadro como um conjunto de dados.
A altura do sol acima do horizonte situa o momento vinte a trinta minutos depois do nascer do sol. As comportas do porto estão abertas, o que indica maré alta – só então os grandes veleiros podiam passar. O cruzamento com as tabelas de marés deixou dezanove dias possíveis. Os registos meteorológicos eliminaram os dias de tempestade. A direção do fumo das chaminés no quadro indicou a direção do vento, reduzindo as hipóteses a duas.
A resposta: 13 de novembro de 1872, por volta das 7h35.
A mesma análise pôs fim a uma velha discussão: é um nascer do sol, não um pôr do sol.
Leia mais: Impressão, Nascer do Sol
2014 – Alguém tocou a música escrita num traseiro
No painel do inferno de O Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch, uma figura jaz esmagada debaixo de uma harpa. Tem uma partitura tatuada nas nádegas – perfeitamente legível e ignorada durante cinco séculos.
Em 2014, Amelia Hamrick, estudante da Oklahoma Christian University, transcreveu-a para notação moderna e gravou-a. O áudio espalhou-se rapidamente pela internet e deu origem a várias transcrições concorrentes, porque a leitura depende de pressupostos sobre a notação musical do século XV.
Ninguém se tinha lembrado de a tocar.
Leia mais: O Jardim das Delícias Terrenas
2018 – O fundo era uma cortina verde
O Mauritshuis, em Haia, levou a cabo uma investigação técnica de duas semanas sobre Rapariga com Brinco de Pérola, chamada The Girl in the Spotlight e coordenada por Abbie Vandivere, com o quadro exposto ao público dentro de um laboratório de vidro.
Os resultados mudaram várias coisas:
- O fundo escuro era originalmente uma cortina verde, com pregas visíveis. Os pigmentos degradaram-se, achatando-a até um quase preto
- Ela tem pestanas. Invisíveis a olho nu, mas estão lá
- A pérola não tem gancho. São algumas pinceladas de tinta branca, sem nada que a segure
Leia mais: Rapariga com Brinco de Pérola
2021 – Foi o próprio Munch que o escreveu
Na versão de 1893 de O Grito, no Museu Nacional de Oslo, uma linha a lápis atravessa o céu: só pode ter sido pintado por um louco.
A explicação habitual era o vandalismo – um visitante indignado, algum tempo depois da primeira exposição. Em 2021, a conservadora Mai Britt Guleng usou imagens de infravermelhos para tornar a linha nítida e comparou as letras com as cartas e os diários de Munch.
É a caligrafia dele. O museu data a inscrição de 1895, depois de um estudante de medicina chamado Johan Scharffenberg ter afirmado publicamente, num debate, que os quadros de Munch provavam que ele não estava no seu perfeito juízo.
O artista escreveu a acusação no próprio quadro.
Leia mais: O Grito
2021 – A inteligência artificial devolveu o que a tesoura cortou
Em 1715, A Ronda Noturna foi levada para a câmara municipal de Amesterdão e não cabia na parede. Cortaram-se tiras dos quatro lados – sobretudo do esquerdo, eliminando duas figuras inteiras. Os pedaços nunca foram encontrados.
Uma cópia do século XVII, feita por Gerrit Lundens antes do corte, regista o que se perdeu.
Em 2021, o Rijksmuseum treinou redes neuronais com a pincelada de Rembrandt, a partir de fotografias do original, e pôs o sistema a gerar as tiras perdidas à maneira dele, e não à de Lundens. Os resultados foram impressos e montados à volta da tela.
Durante alguns meses, o quadro foi exibido nas suas proporções originais pela primeira vez desde 1715, com os acrescentos claramente identificados.
Leia mais: A Ronda Noturna
2022 – Dois objetos que Vermeer apagou
O Rijksmuseum examinou A Leiteira com fluorescência de raios X, reflectografia de infravermelhos e imagens hiperespectrais, antes da grande exposição Vermeer de 2023.
Sob a superfície da pintura: um suporte para jarros na parede do fundo e um cesto de verga para brasas aos pés da mulher. Ambos foram pintados por Vermeer, e ambos foram apagados por ele.
A parede nua, que lemos como um gesto de contenção austera, é o resultado de uma remoção, não de um plano minimalista.
O mesmo estudo mostrou que Vermeer esboçava elementos da composição com traços rápidos de tinta preta antes de os pintar.
Leia mais: A Leiteira
2024 – As cores voltaram
A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix, regressou às paredes do Louvre na primavera de 2024, depois de seis meses de restauro. Foram removidas camadas de verniz amarelecido e de sujidade acumulada.
Sébastien Allard, diretor do departamento de pintura do Louvre, resumiu na altura: esta é a primeira geração a redescobrir a cor do quadro.
Todas as reproduções impressas antes de 2024 – ou seja, praticamente todas as que já viu – mostram o estado anterior.
Leia mais: A Liberdade Guiando o Povo
2024 – O céu é turbulento no sentido físico
Os remoinhos de A Noite Estrelada já foram discutidos como expressão, como sintoma, como pura invenção.
Um estudo publicado na revista Physics of Fluids em setembro de 2024 mediu-os. Os investigadores analisaram a escala e a distribuição do brilho dos turbilhões e compararam-nas com a teoria da turbulência de Kolmogorov, que descreve a forma como a energia passa dos grandes vórtices para os pequenos nos fluidos reais.
A distribuição coincide. Nas escalas mais pequenas, ajusta-se também à lei de Batchelor, que rege a mistura de substâncias passivas num escoamento turbulento.
Van Gogh não tinha acesso a esta teoria – Kolmogorov publicou-a em 1941. Pintou o céu de dia, de memória, e produziu um campo turbulento matematicamente coerente.
Leia mais: A Noite Estrelada
O que continua a ser revisto
Há três padrões comuns a estes casos.
A cor é o que há de menos estável num quadro antigo. Os vermelhos-laca desbotam, os amarelos de crómio escurecem, o verniz amarelece, os verdes à base de cobre escurecem. A paleta que vemos raramente é a que foi aplicada. As paredes do quarto de Van Gogh eram violeta, não azuis. Os seus girassóis eram mais claros.
Os artistas apagavam coisas, e agora conseguimos vê-las. A tecnologia de imagem tornou visíveis as fases abandonadas de um quadro – o que volta a transformar uma obra acabada num registo de decisões.
A reprodução fica para trás. Os museus publicam as suas descobertas. Os manuais escolares, os cartazes e os bancos de imagens não se atualizam. A distância entre o que se sabe e o que circula chega a décadas.
Leia também: Que versão está a ver? Obras famosas que existem em vários exemplares
O que aprendeu sobre estes quadros era verdade quando foi escrito. Isso é diferente de ser verdade agora.
