Que versão está a ver? Obras famosas que existem em vários exemplares
Van Gogh pintou O Quarto três vezes. Munch fez quatro versões de O Grito, e só uma delas tem uma inscrição a lápis entre as nuvens. O Pensador, de Rodin, existe em dezenas de bronzes autorizados e em nenhum original único. Se alguma vez viajou para ver um quadro famoso e encontrou algo ligeiramente diferente da reprodução que conhecia, a razão é quase sempre esta.
As reproduções escondem um problema com que os museus convivem todos os dias: muitas obras de arte famosas não são objetos únicos. Existem em vários exemplares – repetidas pelo próprio artista, fundidas depois da sua morte, impressas em tiragens ou copiadas na mesma oficina. As diferenças são muitas vezes suficientemente pequenas para passarem despercebidas e suficientemente grandes para importarem.
Este guia organiza-as em seis tipos, com os pormenores concretos que permitem distinguir uma versão de outra.
Referência rápida
| Obra | Versões | Onde |
|---|---|---|
| O Quarto | 3 pinturas | Amesterdão, Chicago, Paris |
| O Grito | 2 pinturas, 2 pastéis, 1 litografia | Oslo (dois museus) |
| Girassóis (Arles) | 7 pintadas, 6 sobrevivem | Londres, Amesterdão, Munique, Filadélfia, Tóquio, coleção particular |
| A Torre de Babel | 2 sobreviventes, 1 perdida | Viena, Roterdão |
| O Pensador | 28 grandes bronzes | Em todo o mundo |
| Pequena Dançarina | 1 em cera, dezenas de bronzes | Washington + em todo o mundo, incluindo São Paulo |
| Majas | 2 pinturas | Madrid, na mesma sala |
| Mona Lisa | 1 + uma cópia de oficina | Paris, Madrid |
1. Quadros que o artista pintou mais de uma vez
O Quarto de Van Gogh – três, e as paredes nunca foram azuis
A primeira versão foi pintada em Arles, em outubro de 1888, quando Van Gogh preparava a Casa Amarela para a chegada de Gauguin. Em 1889, a tela foi danificada pela humidade durante uma inundação da casa e enviada a Theo, em Paris, para ser restaurada. Vincent – já internado no asilo de Saint-Rémy – pintou a partir dela duas réplicas: uma do mesmo tamanho e outra mais pequena, para a mãe e a irmã.
- Amesterdão, Museu Van Gogh – o original, outubro de 1888
- Chicago, Art Institute – setembro de 1889, mesmo tamanho
- Paris, Museu d’Orsay – 1889, visivelmente mais pequena, com 57 × 74 cm
Como distingui-las: a cor das paredes e do chão varia, mas o sinal mais fiável são os dois retratos emoldurados por cima da cama. Mostram quadros diferentes em cada versão.
Há algo que vale para as três. As paredes não eram azuis. As análises de pigmentos mostram que Van Gogh misturou um vermelho-laca com o azul para obter violeta, e numa carta descreveu as paredes, em francês, como violet pâle, violeta-pálido. O componente vermelho é sensível à luz e desbotou. As portas e os rodapés, que hoje parecem azuis, eram originalmente violeta-rosados.
Leia mais: O Quarto
O Grito – quatro, e só um tem inscrição
Munch fez duas pinturas, dois pastéis e uma litografia entre 1893 e 1910. Estão todos em Oslo, divididos entre duas instituições: o Museu Nacional e o Museu Munch. Nenhuma das duas tem o conjunto completo, e nenhuma expõe tudo ao mesmo tempo.
A pintura de 1893, no Museu Nacional, tem uma linha a lápis no céu, no canto superior esquerdo: só pode ter sido pintado por um louco. Durante décadas, julgou-se que fosse um graffiti deixado por um visitante ofendido. Uma análise com infravermelhos publicada em 2021 comparou a caligrafia com as cartas e os diários de Munch. Foi ele próprio quem a escreveu, muito provavelmente em 1895, depois de um estudante de medicina ter posto publicamente em causa a sua sanidade.
Nenhuma outra versão a tem.
Leia mais: O Grito
Girassóis – sete, e um ardeu
A série de Arles tem sete telas. Sobrevivem seis.
A sétima, Cinco Girassóis, foi comprada em 1920 pelo empresário japonês Koyata Yamamoto e guardada na sua casa em Ashiya, perto de Kobe. A 6 de agosto de 1945, a casa foi destruída num bombardeamento aéreo, e o quadro perdeu-se com ela. Hoje é conhecido apenas através de fotografias a preto e branco tiradas antes da guerra.
Outra versão foi comprada na Christie’s em 1987 pela seguradora Yasuda Fire & Marine por 24,75 milhões de libras – na altura, um recorde para qualquer pintura. Está exposta no Sompo Museum of Art, em Tóquio.
Leia mais: Girassóis
A Torre de Babel – dois tamanhos, dois ambientes
Bruegel pintou o tema pelo menos três vezes. Uma miniatura sobre marfim, feita em Roma em colaboração com Giulio Clovio, perdeu-se. Sobrevivem dois painéis:
- Viena, Kunsthistorisches Museum – 114 × 155 cm, com um rei e canteiros ajoelhados em primeiro plano
- Roterdão, Museu Boijmans Van Beuningen – 60 × 75 cm, sem a cena do primeiro plano, com a torre mais avançada, mais escura e mais avermelhada, sob um céu que já se fecha
O museu de Roterdão está encerrado para obras; confirme antes de viajar.
Leia mais: A Torre de Babel
2. Quadros diferentes com nomes demasiado parecidos
A Noite Estrelada não é Noite Estrelada sobre o Ródano
São duas obras distintas, feitas com dez meses de intervalo, em cidades diferentes e com métodos diferentes.
- Noite Estrelada sobre o Ródano – setembro de 1888, Arles. Pintada ao ar livre, de noite, na margem do rio, à luz dos candeeiros a gás. Museu d’Orsay, Paris.
- A Noite Estrelada – junho de 1889, Saint-Rémy. Pintada no interior, de dia, a partir da memória e de esboços; Van Gogh não tinha autorização para pintar no quarto. Museu de Arte Moderna (MoMA), Nova Iorque.
O quadro do Ródano é uma vista noturna de um lugar real. O famoso é uma reconstrução.
Leia mais: A Noite Estrelada
Degas pintou A Aula de Dança duas vezes
A versão de Nova Iorque foi encomendada pelo barítono e colecionador Jean-Baptiste Faure; a de Paris é uma variante pintada na mesma época, com o mesmo mestre de bailado, Jules Perrot.
- Nova Iorque, Metropolitan Museum – 1874, 83,5 × 77,2 cm
- Paris, Museu d’Orsay – 1873–1876, 85 × 75 cm
As composições são próximas. O número e a posição das bailarinas mudam.
Leia mais: A Aula de Dança
3. Gravuras, em que simplesmente não existe original
Esta é a categoria mais mal compreendida. Uma xilogravura japonesa não é a reprodução de outra coisa. A gravura é a obra – e foi feita por quatro pessoas, não por uma.
O artista fornecia um desenho. Um gravador cortava as matrizes de madeira. Um impressor entintava-as e prensava-as. Um editor encomendava e vendia o resultado. Hokusai e Hiroshige nunca tocaram nas matrizes.
As impressões tiradas das mesmas matrizes variam bastante:
- As primeiras impressões têm linhas nítidas; as posteriores ficam esbatidas pelo desgaste da madeira
- Os degradés eram feitos à mão sobre a matriz a cada impressão, por isso não há dois céus iguais
- As combinações de cores mudavam de uma tiragem para outra
Vento Suave, Manhã Clara, de Hokusai, é o caso mais evidente. Os colecionadores distinguem o raro Fuji cor-de-rosa, das primeiras tiragens, do conhecido Fuji vermelho. O especialista Roger Keyes considerava as impressões rosadas as mais antigas e as mais próximas da intenção de Hokusai. Na versão posterior, o impressor acrescentou uma matriz, passou a usar um pigmento vermelho barato chamado bengara e voltou a gravar a matriz do verde. A imagem que todos conhecem pode ser a revisão comercial.
Leia mais: Vento Suave, Manhã Clara · A Grande Onda de Kanagawa
4. Escultura, em que a fundição é toda a questão
O Pensador – 28 bronzes, dois tamanhos
A figura nasceu em 1880 como um elemento de 70 cm de A Porta do Inferno, sentada no lintel. Rodin ampliou-a para cerca de 180 cm em 1904.
Existem 28 grandes bronzes. Cerca de dez foram fundidos sob a supervisão de Rodin; os restantes foram feitos depois da sua morte pelo Museu Rodin, nos termos do seu testamento.
Um deles está sobre o túmulo do próprio Rodin, em Meudon. Outro, à entrada do Cleveland Museum of Art, foi alvo de uma bomba em março de 1970 e foi mantido danificado desde então.
Leia mais: O Pensador
Pequena Dançarina – o original é de cera, e está em Washington
O que Degas expôs em 1881 foi uma figura de cera, com cabelo verdadeiro, corpete e saia de tecido, sapatilhas e uma fita no cabelo. É a única escultura que mostrou em público em vida.
Degas nunca a fundiu em bronze. Depois da sua morte, em 1917, os herdeiros – com a ajuda do escultor Albert Bartholomé, amigo do artista – encomendaram à fundição parisiense Hébrard bronzes a partir das ceras encontradas no ateliê. As fontes divergem quanto ao número exato de exemplares da Pequena Dançarina, mas fala-se em algo entre duas e três dezenas.
A cera está na National Gallery of Art, em Washington. Todos os outros exemplares são póstumos – e as saias de tecido dos bronzes são substituídas de tempos a tempos, pelo que não são tecidos do século XIX. Um desses bronzes encontra-se no Brasil, no MASP, em São Paulo.
Leia mais: Pequena Dançarina de Catorze Anos
5. Pares feitos para serem vistos juntos
As duas Majas não foram pintadas como um conjunto
É a suposição mais comum, e está errada. A Maja Nua já se encontrava no gabinete privado de Manuel Godoy, primeiro-ministro do rei de Espanha, em 1800. A Maja Vestida só aparece nos documentos em 1808, num inventário dos bens de Godoy. Foi pintada depois, com uma pincelada mais solta.
Conta-se que, em casa de Godoy, a versão vestida estava pendurada à frente da nua, num mecanismo de roldanas que a fazia deslizar para revelar a outra. É uma bela história, repetida em toda a parte – mas nenhum documento da época a confirma. A primeira descrição da Maja Nua, de 1800, menciona-a sozinha, sem o par.
Hoje as duas estão no Prado, lado a lado.
Leia mais: A Maja Nua · A Maja Vestida
6. Versões que não se podem ver
Algumas existem e simplesmente não estão acessíveis.
O segundo Bal du moulin de la Galette, de Renoir – 78 × 114 cm, não um esboço – foi vendido na Sotheby’s a 17 de maio de 1990 por 78,1 milhões de dólares a Ryoei Saito, presidente da Daishowa Paper. Dois dias antes, o mesmo comprador tinha pago 82,5 milhões de dólares pelo Retrato do Doutor Gachet, de Van Gogh. Mais tarde afirmou que queria ser cremado com os dois quadros, frase que retirou depois de protestos internacionais. Saito morreu em 1996. O Renoir foi vendido de forma privada e não é exposto ao público desde então. O seu paradeiro não é divulgado.
Leia mais: Bal du moulin de la Galette
A Mona Lisa do Prado é um caso diferente. Considerada durante muito tempo uma cópia tardia, foi restaurada em 2011–2012, e a camada de tinta preta que cobria o fundo foi removida. A análise do desenho subjacente mostrou que as suas correções acompanham as do próprio Leonardo, traço a traço – ou seja, foi pintada ao lado do original, na mesma oficina, por um discípulo. É o mais perto que podemos chegar de ver a Mona Lisa sem quatro séculos de verniz.
Leia mais: Mona Lisa
O que isto significa antes de viajar
- Confirme que versão o museu tem realmente. Três instituições podem afirmar, com toda a razão, que têm O Quarto.
- As obras em papel não estão expostas permanentemente. Gravuras, desenhos e pastéis são mostrados por períodos limitados. Isto aplica-se a todas as gravuras japonesas deste guia.
- Os empréstimos acontecem. As grandes obras viajam, por vezes durante meses.
- No caso das gravuras, compare primeiro em linha. Os arquivos digitais dos museus permitem pôr impressões lado a lado – algo que nenhuma galeria permite.
A reprodução que guarda na memória veio de algum lado. Vale a pena saber de onde.
